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Todo Dia é Dia de Índio

publicado em 27 de abril de 2021 - Por Ambiente em Pauta

Desde o ano de 1.500 que os índios das Américas, incluindo o Brasil, lutam pela preservação de suas terras, seu habitat, sua cultura, seus direitos.

Em 19 de abril de 1940, houve o primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México, com o objetivo de discutir os direitos indígenas, instituindo assim essa data como o Dia do Índio. E de pensar que eles foram os primeiros habitantes do Continente Americano, e acabaram sendo dizimados, espoliados, em nome da ganância do “descobridor” das terras de além-mar!

Jorge Ben-Jor em 1982 compôs a música “Todo dia ERA dia de índio, que tem uma estrofe interessante: “…antes que o homem aqui chegasse às terras brasileiras, eram habitadas e amadas por mais de 3 milhões de índios, proprietários felizes da Terra Brasilis… todo dia era dia de índio…”

Essa música, cantada por Baby do Brasil, virou sucesso, porém não se trata de uma homenagem aos povos indígenas e sim de um lamento, um protesto.

Segundo o IBGE, com dados do Censo realizado em 2010, havia no Brasil 896.917 indígenas. A população original sofreu extermínio, epidemias, escravidão e esses foram alguns fatores que contribuíram para o decréscimo da população indígena. Estão em constante ameaça quanto à invasão de seus territórios, sofrem discriminações, descasos, falta de infraestrutura.

De acordo com a reportagem de Carmem Pankarau e Antônio Alves de Souza datada de 07/07/20, publicada no Conselho Nacional de Saúde (www.conselho.saude.gov.br), “os índios no Brasil viveram séculos na invisibilidade. Apesar de terem atravessado caminhos de mortes de cicatrizes não curadas, pouco se fala na história de vida real desses povos, que foram dizimados por doenças introduzidas pelos invasores portugueses e outros”.

Ailton Krenak, ambientalista e uma das maiores lideranças indígenas, nos fala sobre a luta do povo pelo reconhecimento de suas terras, que estão sendo invadidas devido a inúmeros fatores, dentre eles, a mineração, uma atividade extrativista que visa o lucro tão somente e não se preocupa com danos ambientais – vide as tragédias de Mariana e Brumadinho, crimes ambientais e humanos até hoje impunes. Um crime que causou profundos danos à Bacia do Rio Doce e aos seus trabalhadores. Essa é uma discussão muito pertinente.

Estamos caminhando a passos largos para um modelo socioeconômico dos mais devastadores, o chamado neoliberalismo, que, dentre outras questões muito sérias como as privatizações das empresas estatais, o mínimo de interferência do Estado na economia, a diminuição das leis trabalhistas. Prega, também, o fim das políticas sociais, visando o aumento do lucro e a exploração da mão-de-obra, aumentando a desigualdade e a pobreza para a grande maioria da população.

É um sistema que afeta a sociedade como um todo e a questão indígena não fica de fora e, mais uma vez, sofre os efeitos tão nefastos desse sistema abusivo.

Portanto, não adianta pensarmos que o problema das nações indígenas não é nosso. O que acontece para um acontece para todos. Estamos todos expostos a situações conflitantes e de perda. Quanto mais rápido compreendermos que somos todos um, melhor para o nosso fortalecimento e ações práticas.

Precisamos de leis protetivas para todos os brasileiros, leis que nos protejam da extrema ganância, da exploração selvagem que esse tipo de sistema socioeconômico impõe.

O Brasil é plural, composto de pessoas diversas, com cores diferentes, línguas diferentes e diferentes culturas. Aceitar a pluralidade é, em última análise, expandir conhecimentos, expandir a consciência. Devemos honrar nossa ancestralidade.

Então, caros leitores e leitoras, seria muito interessante que aprendêssemos a pensar um pouco mais no futuro. O planeta Terra não é descartável, como querem nos fazer crer!

Portanto, todo dia é dia de índio! É dia de aprender, é dia de lutar, é dia de preservar e de perseverar!

Maria Aparecida dos Santos é socióloga e colaboradora do Coletivo Socioambiental de Bragança Paulista