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O Ponto de Mutação: dá para mudar o mundo?

publicado em 10 de março de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Fritjof Capra, físico austríaco, tornou-se famoso em 1975 quando publicou “O Tao da Física”, sucesso mundial que marca o início de sua pesquisa em busca de uma nova maneira de pensar os problemas da vida e o pensamento científico do século XX.

Nesse livro, aproxima a física moderna ao misticismo oriental. Entre outras coisas, tornou-se ambientalista e foi um dos fundadores do Centro de Eco-Alfabetização na Universidade de Berkeley, Califórnia, em 1995. No Brasil participou do III Fórum Social Mundial em Porto Alegre e em 2006 esteve no centro do Roda Viva da TV Cultura- Fundação Padre Anchieta.

A pedra de toque do cientista é simples – se as coisas vão mal, precisamos aprender a vê-las de outra perspectiva. Foi o que fez ao buscar pistas para sair do modelo cartesiano de pensar, que estuda os fragmentos para explicar o todo, criando leis imutáveis de causa e efeito, de forma linear (as leis da natureza, por exemplo), para pensar a partir do todo – o método holístico ou sistêmico – que trabalha as conexões e interdependências das partes. Ou seja, Capra preconiza uma mudança de paradigma ao conceber o mundo como um todo integrado, um sistema e não mais uma coleção de partes separadas, precisamente descritas e comprovadas.

“Acredito que a visão de mundo sugerida pela física moderna seja incompatível com a nossa sociedade atual, a qual não reflete o harmonioso estado de inter-relacionamento que observamos na natureza. Para alcançar tal estado de equilíbrio dinâmico será necessária uma estrutura social e econômica radicalmente diferente: uma revolução cultural na verdadeira acepção da palavra.

A sobrevivência de toda a nossa civilização pode depender de sermos ou não capazes de realizar tal mudança”, escrevia no final de seu primeiro livro. Em 1982 publica outro livro de impacto.

Em “O Ponto de Mutação” Capra analisa o “estado de profunda crise mundial” que desde o início do século XX se amplifica afetando todos os aspectos de nossa vida. Uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais sem precedentes na história.

Apesar de tudo, o livro de Capra mostra caminhos de transformação possíveis, capazes de inverter a situação que criamos, a partir do estudo que faz da história de ascensão e queda das principais civilizações – o ponto de mutação segundo o I Ching.

No capítulo ‘O impasse da economia’, por exemplo, em uma página aberta ao acaso (211) podemos ler… “Os problemas de defesa dos Estados Unidos, como todos os outros, são considerados, simplesmente, problemas de tecnologia pesada

. A importância da pesquisa psicológica social e comportamental –para não citar a filosofia e a poesia – jamais é mencionada. Além disso, a questão de segurança nacional é analisada predominantemente em termos de “blocos de poder”, “ação e reação”, “vazio de poder” e outras noções newtonianas semelhantes”.

E dada a complexidade do sistema, replicada na engenharia civil, explica o autor, passa-se mais tempo mantendo e regulando o sistema do que fornecendo bens e serviços, gerando assim custos sociais, mentais e de saúde, além de ambientais. Seria preciso ter a coragem de estabelecer limites saudáveis para o crescimento, como explica no capítulo 8 – o lado sombrio do crescimento.

O capítulo 10 “Holismo e Saúde” examina o conceito de doença, saúde e medicinas ao longo da história, além das políticas de assistência médica e o papel da biomedicina. Segundo o médico britânico Thomas McKeown, “deve-se reconhecer que a questão fundamental na medicina é por que a doença ocorre e não como ela funciona depois que ocorreu; quer dizer, conceitualmente as origens da doença devem ter precedência sobre a natureza do processo patológico”, (pág. 143).

Outro exemplo claro de inversão do ponto de partida que caracteriza o raciocínio de Fritjoff Capra, que conclui: “a adoção de um conceito holístico e ecológico de saúde, na teoria e na prática, exigirá não só uma mudança radical conceitual na ciência médica, mas também uma reeducação maciça do público”.

Em 1996 Capra publicou “A Teia da Vida”, em que tece as bases para o desenvolvimento de políticas ecológicas sustentáveis que assegurem o futuro das novas gerações e do Planeta. E adverte: o que acontecer com a Terra acontecerá com os filhos e as filhas da Terra. Estamos em 2020! Em que ponto estamos?

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Contribuição de Teresa Otondo, integrante da Associação Bragança Mais e Coletivo Socioambiental.