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Está faltando comida para muita gente!

publicado em 11 de maio de 2021 - Por Ambiente em Pauta

Segurança alimentar e nutricional está associada à condição das pessoas se alimentarem adequadamente, satisfazendo suas necessidades diárias de modo a ter uma vida saudável. Ou seja, é a preocupação de garantir que as pessoas comam e tenham água de boa qualidade para ficarem saudáveis.

Isso é um direito social garantido pela constituição de nosso país. Mas quem deve fazer a constituição da república chegar ao prato do brasileiro? Todos nós! Nós que elegemos e temos o dever de continuar cobrando daqueles que nos governam que cumpram seus deveres para com a sociedade; nós que participamos de conselhos, que somos representantes de entidades, de associações de moradores, que cobramos e acompanhamos como são feitos os gastos do dinheiro público, enfim todos nós que tomamos não somente nossos direitos como prioridade, mas que compartilhamos a certeza de que para acessar os direitos devemos encarar nosso dever de cidadania ativa para além do voto. E como estamos com a questão de garantir o direito à alimentação?

O cenário de crise sanitária (pandemia), política e econômica demonstrou em pesquisa deste último mês, pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), que o brasileiro enfrenta sérios desafios para se alimentar, e esse cenário pode piorar. Em 2017-2018, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) realizada pelo IBGE, as famílias que ganhavam até dois salários-mínimos destinavam 61,2% dos seus gastos com alimentação e habitação.

Numa outra pesquisa, realizada pelo IPEA (Instituto de Economia Aplicada), foi analisado o que todo brasileiro já sentiu na pele: que no ano de 2020 a inflação e o aumento dos custos de alimentação pesaram 10 vezes mais no orçamento das famílias que ganham menos.

Vale lembrar que os institutos de pesquisa aqui utilizados e muitos outros, são muito importantes para a sociedade se reconhecer como um todo, e para os políticos não analisarem as necessidades da população só pelo seu ponto de vista, baseado muitas vezes na sua própria realidade. Sabemos que tem muito político que nunca passou fome, nem necessidade, e pode achar que está tudo indo muito bem… e outros que esqueceram a urgência de quem passa fome. E o que a pesquisa de 2020 mostra na prática?

Que enquanto as pessoas com os melhores salários conseguem rever prioridades e garantir a alimentação, moradia mesmo com a inflação, por outro lado as famílias mais vulneráveis atualmente não conseguem nem mesmo garantir a alimentação mínima, principalmente quando os itens que alavancam a inflação estão associados a itens da cesta básica e o gás, por exemplo! Em meio a esse cenário, a sociedade tem se mobilizado em ações de solidariedade em diversas frentes que são muito preciosas, pois lembremos que “quem tem fome, tem pressa”. Contudo, essas ações não alcançam a todos.

Não podemos ignorar que esse cenário de agravamento da fome deve ser prolongado e que respostas do poder público são fundamentais para chegar a todos que necessitam. Há uma infinidade de conhecimento de estratégias já utilizados na própria sociedade brasileira sobre como garantir que a fome não massacre nossa população. Essas estratégias foram deixadas de lado nos últimos anos, porém as condições atuais mostram que é um enorme risco social ignorar que as instituições públicas, legislações e recursos precisam prever uma rede de proteção para a fome que se alastra rapidamente.

Todas as frentes são desafiadas pela demanda de mantermos distanciamento social e ao mesmo tempo termos que dar respostas rápidas e integradas para sermos eficientes. Deste modo, estruturar restaurantes populares, cozinhas comunitárias, agricultura urbana com amparo técnico e produção de alimento fresco e renda da cidade; instituir banco de alimentos a preços subsidiados para famílias carentes, entre tantas outras possibilidades devem ser medidas adaptadas para a realidade já na pandemia e garantidas no pós-pandemia.

De forma alguma podemos deixar de cobrar por ações que deem repostas às emergências atuais e que garantam mais segurança alimentar de médio e longo prazo. Devemos lembrar que as estratégias que adotamos para garantia de segurança alimentar são medidas que são benéficas para toda cidade que queira se manter no século XXI com um grau de desenvolvimento crescente e bem viver para seus cidadãos – as previsões de mudanças climáticas também baterão à nossa porta logo ali na frente, e a segurança alimentar continuará sendo um tema de altíssima importância.

Patricia Martinelli – Geógrafa, integrante do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais