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Cuidado para não repetir este equívoco conceitual: A água do mundo vai acabar

publicado em 16 de março de 2021 - Por Ambiente em Pauta

“A água do mundo vai acabar”, inegavelmente este é um dos equívocos conceituais mais ditos quando se trata dos recursos hídricos. Representado por imagens do planeta seco como um grande deserto, muitas vezes acaba chocando mais do que despertando as pessoas para o uso consciente da água. O mais adequado nessas ocasiões seria substituir essa ideia de “acabar a água” por “escassez de água doce de qualidade”. Vamos compreender por quê.

A água se originou durante o período de formação do planeta Terra, com a liberação de grandes quantidades dos gases hidrogênio e oxigênio na atmosfera, que se combinaram e deram origem aos vapores de água através das temperaturas muito elevadas. À medida que as temperaturas baixaram, os vapores se transformaram em nuvens, que foram atraídas pela gravidade e caíram em forma de chuva na superfície da Terra.

Apesar de termos a impressão de que a água está “acabando”, a quantidade de água na Terra é praticamente a mesma há 500 milhões de anos graças a um processo chamado ciclo hidrológico, através do qual as águas do mar e dos continentes se evaporam, formam nuvens e voltam a cair na terra sob a forma de chuva, neblina e neve.

Depois escorrem para rios, lagos ou para o subsolo, e aos poucos correm de novo para o mar, mantendo o equilíbrio no sistema hidrológico do planeta.

O planeta Terra bem que poderia ser chamado de planeta Água, pois ela ocupa 70% de sua superfície. Arredondando os valores, a maior parte, 97% é água salgada. Apenas 3% do total é água doce. Desses 3% temos 2% concentrados na formação das geleiras e apenas 1% disponível para ser consumida.

Além do crescimento populacional já indicar o aumento na demanda por água, seu consumo cresce mais que o aumento da população. No ano de 1800, o consumo médio de uma pessoa por dia era de 50 litros de água. Em 2010 o consumo médio passou a ser de 200 litros de água por dia por pessoa. Segundo a Organização das Nações Unidas, cada pessoa necessita de cerca de 110 litros de água por dia para atender às necessidades de consumo e higiene.

Os recursos hídricos são utilizados para múltiplos fins, tais como: abastecimento doméstico, abastecimento industrial, irrigação, recreação e lazer, geração de energia elétrica, transporte, navegação e diluição de despejos.
Quando somos questionados sobre o uso que fazemos da água, citamos o uso para saciar a sede, para higiene pessoal, limpeza de casa, etc. Isso faz parecer que nosso maior consumo de água está ligado aos usos domésticos. Porém os dados nos mostram que o consumo que nós fazemos da água se divide percentualmente da seguinte forma: a agricultura é o setor que mais consome água, cerca de 70%. O setor industrial 23% e o uso doméstico fica por último, com 7% do consumo.

Mesmo a agricultura e a indústria sendo os setores que mais consomem água, isso não nos deixa livres de responsabilidade, pois essa água toda é utilizada para a produção de alimentos e produtos que consumimos diariamente. Nessa produção está a “água virtual”, que é a água que nós não vemos no produto pronto, mas que está ligada diretamente ao seu processo de produção. Podemos citar como exemplo de quantidade de água virtual utilizada para fazer um jornal, que são mais de 423 litros de água; para fazer um par de sapatos de couro são utilizados 8 mil litros de água; para produzir um tomate são necessários 30 litros de água; e para produção de 1 quilo de feijão são necessários de 1 mil a 3 mil litros de água.

Apesar de a maioria das campanhas de uso consciente de água enfatizar os usos domésticos, como tomar banhos rápidos, fechar a torneira ao escovar os dentes e não lavar a calçada, é importante que percebamos também que ao desperdiçar alimentos e comprar coisas em excesso de que realmente não precisamos – o consumismo, também estamos desperdiçando água. Devemos continuar adotando posturas de uso consciente de água em nossa casa, mas também estarmos conscientes de que estamos consumindo água ao fazer as compras.

As necessidades humanas de água são complexas e representam em primeiro lugar uma demanda fisiológica. Cerca de 60% a 70% do peso de um ser humano, em média, é constituído por moléculas de água. Doenças de origem hídrica são a causa de ocupação de metade dos leitos hospitalares em todo o mundo. Por isso a água deve ser limpa e de qualidade quando consumimos.

Por mais que gere certa tranquilidade saber que a água do mundo não vai acabar graças ao ciclo da água, as interferências humanas quebram esse ciclo natural, influenciando na quantidade e qualidade de água disponível para o consumo, sobretudo com o uso e ocupação do solo de forma desordenada tanto em áreas urbanas como rurais, a impermeabilização do solo – grande causadora de enchentes e dificulta o reabastecimento dos reservatórios subterrâneos; desmatamentos, ocupações de áreas de preservação permanente, lixo, contaminações químicas e biológicas, etc.

De que adianta chover em um manancial contaminado? Não é que os seres vivos simplesmente precisam de água para viver, precisamos de água doce e de qualidade para podermos ter qualidade de vida.

Contribuição de Maria Cristina Muñoz Franco, integrante do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais, autora do livro “Educação ambiental: um sonho que se sonha junto”, do qual foi retirado esse trecho para publicação na Coluna Ambiente em Pauta.