Colunistas

Ao mestre e à mestra com carinho

publicado em 17 de abril de 2021 - Por Antônio Carlos de Almeida

No encerramento de um dos telejornais da Globo, Rodrigo Bocardi contou uma história iniciada em 1986, envolvendo uma professora e um aluno de escola pública.

Essa história, por sua singeleza e profundidade, está sendo muito compartilhada em diversas mídias sociais. Há 35 anos, na cidade de Matão – SP, Elza Bússola era uma professora e Flávio Borsetti, aluno das primeiras séries. Encantado com a mestra, naquela ocasião queria lhe dar uma joia.

Sua mãe lhe explicou que por motivos financeiros não era possível. Decidiram então presentear a professora com um porta-joias, de madeira, bem simples. Nesta semana, num hospital da região, Flávio Borsetti, agora médico, deu alta à paciente Elza Bússola, que esteve internada durante 40 dias para se curar de covid.

Revelando intenso carinho mútuo, ainda junto ao leito hospitalar, ambos aparecem numa foto. Em seguida, já em casa, na varanda, ainda com sonda nasal, a professora apresenta para a reportagem o porta-joias que recebera do garotinho. A professora nunca esquecera do aluninho, este seguiu os ensinamentos daquela.

Histórias como essa são comuns no meio educacional. A maior parte de minha atuação profissional deu-se em ambiente escolar privado, mais recentemente, em escola pública estadual. É sempre interessante receber visita de ex-aluno. Percorrem todos os espaços do prédio, contam as brincadeiras que faziam e sempre perguntam onde estão e o que fazem antigos professores. Curiosamente, os mais exigentes são os mais lembrados. Em todas as escolas, dentre os professores, existem aqueles que são mestres.

Estes têm o dom de orientar para o futuro, de inspirar projetos de vida, de desenvolver habilidades que ao longo da vida permitem aos alunos superar dificuldades. É muito frequente que ex-alunos atribuam seu sucesso pessoal e profissional ao que receberam da escola, dos professores, principalmente, das mestras e dos mestres.

O ano passado e este estão sendo dificílimos para alunos, professores e pais. Estão sentindo falta da convivência diária, das orientações e, inclusive, das cobranças. Muitos pais já não sabem o que fazer para entreter as crianças e adolescentes em casa.

Logo perceberam que os professores têm habilidades que eles próprios não têm, que são insubstituíveis no processo educacional. Apesar de todos os esforços, cresce a defasagem de aprendizados. Conteúdos a serem apreendidos em determinada idade estão ficando para depois, mais adiante, essa base necessária para o desenvolvimento dos anos finais da educação fundamental, para o ensino médio, para o curso técnico, para o curso superior e para os treinamentos in company não estará disponível. Então serão necessários longos processos de recuperação. Já existem hoje milhares de vagas de emprego que não são preenchidas pelo fato das empresas não encontrarem candidatos minimamente habilitados.

É importante registrar que professores e alunos de escolas privadas e públicas não estão parados durante a pandemia. Com muito esforço, com assimilação acelerada de tecnologias, com a disponibilidade de recursos próprios, tais como computadores pessoais e celulares, parte dos quais bem precária, diariamente, os professores desenvolvem busca ativa de seus alunos, oferecem orientação, encaminham atividades, cobram a entrega de atividades.

Correm atrás de cursos, fazem reuniões de formação e reuniões técnicas semanalmente. Mesmo assim sentem falta dos seus alunos. Atentos às necessidades atuais dos alunos, no contexto da pandemia, muitos foram além das funções típicas de professor.

Houve preocupação com alunos que fazem a principal refeição na escola, foram ao encontro de alunos que davam sinais de depressão ou que não estavam participando das atividades online.

Do ponto de vista pessoal, social e econômico, a educação é uma atividade essencial. Todos os países que em algum momento registraram avanços importantes investiram pesadamente na educação de crianças, jovens e adultos. O encontro da professora e do médico não é raro.

Cada um de nós guarda a lembrança de algum mestre ou mestra que fizeram diferença em nossa vida. Em conjunto, embora ainda não suficientemente valorizados, professores fazem a diferença na vida das famílias, no desenvolvimento das cidades e no futuro econômico, social, político e cultural do país. No muro da escola que dirijo, um pichador escreveu; “+ educação, – corrupção”. Não concordo com o meio que ele utilizou para se expressar, mas concordo com o seu pensamento. Aos mestres e às mestras, nosso carinho.