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Agroecologia, uma promessa para o futuro?

publicado em 20 de abril de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Num severo prédio escolar típico do século XIX, o antigo Instituto Nacional de Agronomia, hoje batizado como AgroParisTech, o professor, engenheiro agrônomo e pesquisador francês Marc Dufumier fala sobre seu último livro, lançado em 2019 – A Agroecologia Pode Nos Salvar. Para ele a agroecologia é uma disciplina cientifica que tem um objetivo preciso: “a agroecologia não estuda somente o solo, as abelhas ou as plantas, mas o conjunto com o qual o agricultor deve lidar, as interações, conexões, interdependências que se manifestam e sua relação com o contexto econômico, histórico, social e jurídico.

É sobretudo na agricultura que se revela da maneira mais concreta a relação do homem com a natureza, afirma. O professor, que viajou o mundo inteiro para conhecer o modo de plantar e o modo de alimentação em cada cultura e região, define a agroecologia como um ecossistema complexo criado pelo agricultor em determinado lugar. Então é preciso conhecer as relações que existem entre os vegetais e os animais, e as condições biofísicas, climáticas, econômicas e sociais que resultam dessa intervenção humana. Simplificando mais ainda, ele define agroecologia como a ciência que estuda os ecossistemas produtivos e de longa duração criados pelo agricultor com sua intervenção no local.

O sonho do século XX foi o de querer uniformizar o sistema agrícola pelas sementes geneticamente melhoradas para que pudessem ter o mesmo rendimento em qualquer lugar, clima e terra, imunes a pragas e sem a concorrência das ervas chamadas daninhas. O objetivo: criar ecossistemas homogêneos para garantir altas produções capazes de alimentar uma população mundial carente e crescente e garantir alta rentabilidade do investimento, minimizando os riscos naturais.

No entanto, simplificar o ecossistema, descobriu-se logo, é fragilizar o sistema. E as variedades geneticamente selecionadas só conseguem dar a resposta esperada se alimentadas quimicamente, o que acelera o crescimento e programa o amadurecimento das plantas e com o uso de produtos destinados ao combate às ervas daninhas, pragas e outros predadores. Um sistema que segundo Dufumier cria uma nova dependência de alto custo, um dano à biodiversidade e significativa poluição do lençol freático. Assim como a fabricação industrial de certos fertilizantes químicos, que utiliza energias fósseis como o petróleo, adverte. Sem esquecer as subvenções à agricultura, que na França, entre outros países, são elevadas e oneram os cofres públicos e o custo em carbono da rede de distribuição de longa distância da produção que também fazem parte da equação.

Mas passar do sistema intensivo ao seletivo não é fácil e leva tempo. A reconversão à preservação ambiental, qualificação da vida rural e do agricultor e sua família e à produção de alimentos saudáveis num quadro de comércio justo é uma longa cadeia de novos hábitos a ser construída. Marc Dufumier sabe disso, mas apesar de aposentado não cruza os braços. Em entrevista à revista francesa “L`Obs” em junho de 2019, afirma ser favorável à economia de mercado, mas se opor à economia capitalista quando a escolha dos investimentos na agricultura visa prioritariamente o rendimento máximo do capital aplicado. Uma verdadeira inversão de valores em termos de produção de alimentos.

Ele defende as propriedades familiares, onde os membros escolhem as culturas que querem desenvolver, data de colheitas, tipo de produtos e tomam decisões em função do interesse e necessidades da família.

Natureza, modo de vida, agricultura, alimentação… tudo vira política hoje em dia, ou filosofia de vida, como prega o francês Pierre Rabhi, pensador da ecologia e agricultor, que promove a simplicidade e a austeridade como modo de vida e postula uma mudança global da sociedade pelo exemplo. Para ele cultivar o próprio jardim e viver da terra é um ato político e um ato de resistência.

Trata-se, portanto, de escolher um novo modelo de desenvolvimento no qual a preservação ambiental, a qualidade dos alimentos e o respeito humano sejam moeda de valor.

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Contribuição de Teresa Otondo integrante da Associação Bragança Mais e Coletivo Socioambiental.