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Abismo superado

publicado em 14 de maio de 2021 - Por Pastor Jessé

Superar a separação entre o ser humano e Deus é o desafio crucial. Mas, o que é essa separação? Como é possível superá-la?

A superação da separação não é natureza ontológica. A separação envolve sim dois seres: o ser de Deus e o ser humano. Porém, o problema não é que a alma humana precisa se reintegrar ao ser de Deus: “…de eternidade a eternidade tu és Deus” (Sl 90:2). Há uma distinção insuperável quanto aos dois tipos de ser, mas não há algum tipo de distância ontológica, nem metafísica, e nem presencial, a ser superada.

Se o ser humano tem seus limites, Deus não os têm. Entre outros atributos, Ele é onipresente. Deus nunca está longe. O salmista já perguntava: “Para onde poderia fugir da tua presença?” (Sl 139:7). O apóstolo Paulo declarou aos politeístas atenienses que Deus não está “longe de cada um de nós” (At 17:27).

Técnicas religiosas, exercícios espirituais e liturgias não superam a distância porque não há distância. As liturgias cristãs não são para superação. Elas são expressões daqueles que já se reconciliaram com Deus. É o comungar e desfrutar de Deus.

Há também o equívoco de superação pelo emocional. Então, a solução é sentir Deus numa experiência intimista. Esse entendimento é inadequado. A subjetividade do sentir é essencialmente relativista e imprecisa. Sentir quanto? Sentir como? Sentir o que? E mais, o sentimento é intrinsecamente volúvel e instável, como é próprio das emoções. Nem Jesus, e nem os apóstolos, apontou para uma solução emocional.

Há cultos e missas nos quais se esmera em levar a audiência a um momento emocional. É uma lamentável manipulação. Eleva a um perene retorno a necessidade de uma nova emoção. Nunca há uma resolução estável, plena e real, como deve ser a reconciliação com Deus. Ainda que o ser humano foi criado como emocional, e há emoções legítimas, a essência do encontro com Deus não é emocional.

Outro equívoco é a separação vista como epistemológica. Ou seja, é uma questão de conhecimento. Nesse bojo surge com força o esoterismo. Deus vai sendo conhecido, e sua presença atingida, conforme se evolui num certo conhecimento mediador. Porém, o problema do ser humano não é desconhecer Deus.

Todos têm algum conhecimento de Deus. O problema é que o ser humano não atenta para Deus no conhecimento que tem, como argumenta o apóstolo Paulo. E afirma: “…o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus… têm sido vistos claramente…” (Rm 1:19-20). Aliás, o conhecer Deus na Bíblia extrapola a informação, envolvendo sempre o relacional depois da separação já superada.

Já antes de Cristo, o profeta Isaías apontava para a real separação: “…as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele…” (Is 59:2). O problema basilar é identificado como pecado. E é notoriamente comum a todo o ser humano. Realisticamente declarou o apóstolo Paulo: “…todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Por isso, assim o anjo anunciou o nascimento de Jesus: “…Ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1:21). E desta forma João Batista apresentou Jesus: “É o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo1:29). Jesus Cristo vem ao mundo não para remover uma separação geográfica, ontológica, epistemológica ou emocional.

O maior desafio para o ser humano é reconhecer que o abismo é ético – pecado. Aliás, ele já desenvolveu todo tipo de artimanha e paliativos para evitar esse fato. E, até por isso, prefere focar no ontológico ou no emocional. Porém, Jesus afirmou: “…se não se arrependerem, todos vocês igualmente perecerão” (Lc 13:3).

O ser humano é contundente devedor. Ele não pode superar sua separação moral de Deus. Ele carece de uma intervenção além de si. A barreira é removida somente por aquele que era suficiente para tomar sobre si, e tomou, como substituto, e em misericórdia, a culpa moral humana: O Cristo morto na cruz. Então, primeiramente o ego humano precisa ser quebrantado, arrebentando o orgulho. Ultrapassar a separação exige o arrependimento e dependência da intervenção de Cristo.