Saúde

Paciente de CTI

publicado em 11 de Maio de 2018 - Por Phillippe Watanabe/Folhapress

Não tem nutrição adequada, estudo mostrou que 40% das pessoas internadas não recebem uma dieta calórica apropriada para sua condição. Especialistas afirmam que falta atenção para a terapia nutricional e que pacientes devem cobrar seus médicos

O centro de tratamento intensivo (CTI) é um dos lugares com maior vigilância e assistência médica dentro de um hospital. Mesmo assim, a desnutrição e a ausência de ingestão calórica adequada são problemas nessas unidades, de forma semelhante ao que ocorre em outras alas de unidades de saúde.

Ao analisar os CTIs de 116 hospitais (públicos, privados e hospitais-escola) da América Latina, pesquisadores descobriram que 70% dos 1.053 pacientes estudados apresentavam desnutrição moderada ou grave mesmo recebendo terapia nutricional –procedimento que auxilia na nutrição do paciente internado.

Além disso, em cerca de 40% dos pacientes a ingestão calórica era inadequada.

“Eles recebiam a nutrição, mas havia um deficit. Ela era dada, mas não era suficiente para atingir o que o paciente precisava”, afirma Maria Isabel Correia, médica especialista em nutrição da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e uma das autoras da pesquisa, publicada na revista “Critical Care”, que analisou a situação nos hospitais.

Quadros de desnutrição que não recebem os cuidados necessários podem agravar o risco de morte, diminuir a eficácia e aumentar o tempo de tratamento dos pacientes, além de elevar a chance de reinternações –e, consequentemente, os custos hospitalares.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, os cuidados com o estado nutricional dos pacientes –tanto os que chegam quanto os que já estão nos hospitais– costumam ser considerados secundários.

“A equipe de saúde dá muito mais importância para outros medicamentos, coisas ligadas à sobrevivência aguda dos pacientes do que propriamente à dieta”, diz Paulo Ribeiro, coordenador da equipe de terapia nutricional do Hospital Sírio-Libanês.

No caso dos CTIs, contudo, há outro fator agravante –que, pelo menos em parte, pode explicar o elevado nível de desnutrição encontrado pela pesquisa.

Ribeiro, que não participou do estudo, diz que pacientes com quadros graves de inflamação ou doenças agudas têm uma resistência sistêmica que dificulta a recuperação de massa muscular e tecidos. De forma geral, o corpo destina a nutrição recebida à defesa imediata do organismo.

O especialista afirma que, nesses casos, há dificuldades em balancear a carga calórica que o paciente recebe. “Conhecemos muito pouco desses mecanismos para poder burlá-los de forma efetiva.”

De toda forma, “a doença mais prevalente nos hospitais brasileiros se chama desnutrição”, diz Correia, que tem repetido esse alerta há anos.

REALIDADE HOSPITALAR

A pesquisadora da UFMG demonstrou, em outro estudo publicado em 2016, a elevada prevalência –de 40% a 60%– da desnutrição em pacientes internados.

O quadro, embora preocupante, não é recente. Há quase duas décadas a publicação do Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar (Ibranutri) já demonstrava a situação de desnutrição entre pessoas internadas.

Para Correia, é importante a disseminação de equipes de terapia nutricional, além do monitoramento, a partir de auditorias, do seu funcionamento. “A terapia não pode ser vista como algo a mais, mas, sim, como parte integral do cuidado do paciente.”

Segundo José Aguilar do Nascimento, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, a formação nas faculdades de medicina pode ser um dos caminhos para que se preste mais atenção aos aspectos nutricionais durante internações.

Além disso, os pacientes e seus familiares devem ficar vigilantes sobre a situação nutricional e, quando necessário, cobrar atenção quanto ao assunto. “A nutrição no hospital é um direito do doente”, afirma Dan Waitzberg, professor da faculdade de medicina da USP.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde afirma que, no Brasil, há 424 hospitais habilitados para terapia nutricional, que devem contar com um grupo multiprofissional composto por, no mínimo, um médico, um nutricionista, um enfermeiro e um farmacêutico.

“Além do custeio, o Ministério da Saúde tem desenvolvido ações que visam o fortalecimento da terapia nutricional no âmbito hospitalar”, como a realização de cursos de capacitação, afirma a pasta em nota.