Saúde

Infectologista tira dúvidas sobre o Coronavírus

publicado em 20 de março de 2020 - Por BJD
Infectologista José Ribamar Mendes Ferreira

O mundo está em alerta com o avanço do novo Coronavírus, que surgiu em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, na China. A doença que causa a atual pandemia foi batizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Covid-19.

O Bragança-Jornal conversou nesta semana com o infectologista José Ribamar Mendes Ferreira, que respondeu varias perguntas.

Bragança-Jornal (BJ): Quais os sintomas e quando devo procurar um médico?
José Ribamar Mendes Ferreira (Dr. Mendes): A doença pelo novo coronavírus (Covid-19) é semelhante a um estado gripal. De início aguda, podendo ser leve a moderada, ou grave, geralmente em idosos ou pessoas com doenças crônicas. Os sintomas mais comuns são febre, tosse e dificuldade para respirar. Podem surgir: cansaço, dores no corpo, coriza e congestão nasal, além de dor de garganta. A maioria dos indivíduos é assintomática, isto é, não tem nenhuma manifestação da infecção. Somente aqueles que apresentam sinais de gravidade – febre, tosse, dificuldade para respirar ou dor no peito, devem procurar atendimento médico imediato nas Unidades de Urgência/ Emergência.

BJ: Qual é o tempo de incubação do vírus?
Dr. Mendes: O tempo médio de incubação do vírus é de dois a sete dias em média, podendo chegar a 14 dias.

BJ: Quais são as formas de contágio?
Dr. Mendes: Secreções expelidas pelo trato respiratório, através da tosse e espirros, ou da fala. Os indivíduos doentes são os que mais transmitem, porém mesmo pessoas com sintomas leves ou sem sentir nada e que têm a infecção podem transmitir. Estas secreções contaminam diretamente a pessoa ou superfícies, como mesa, maçaneta de porta, celulares, canetas, chaves e outros objetos que ao serem manipulados contaminam as mãos e estas ao serem levados à boca, rosto e olhos podem infectar o indivíduo. Daí importância de fazer a limpeza destes objetos e das mãos.

BJ: Apenas numa conversa, frente a frente, é possível a transmissão do vírus?
Dr. Mendes: Sim, notadamente a menos de dois metros um do outro. Lembrar que o vírus também pode ser transmitido indiretamente por contaminação de superfícies sem luz solar direta ou não limpas, porque tem a capacidade de sobreviver no meio ambiente favorável por várias horas.

BJ: Se há um caso suspeito em casa, como tratar dessa pessoa? Como deve ser a alimentação e quais os cuidados?
Dr. Mendes: Os pacientes sem gravidade devem ser cuidados em casa. A pessoa da família designada para cuidar do paciente, deve usar máscara, lavar muito bem as mãos e usar álcool gel sempre que tiver contato com o doente. Os objetos de uso do doente devem ser separados (copos, pratos, talheres, sabonete, toalhas). As roupas devem ser lavadas em separado.

Não existe remédio específico para o Coronavírus. O tratamento é sintomático. Analgésicos como, dipirona ou paracetamol, descongestionantes e hidratação abundante. Alimentação normal. Não existem alimentos, vitaminas, chás e demais remédios caseiros que curem ou evitem a infecção pelo Coronavírus.
O paciente deve permanecer em quarto exclusivo, bem arejado e portas fechadas. Se possível com banheiro exclusivo.

Caso contrário, limpá-lo após uso, utilizando desinfetantes, como água sanitária, e luvas descartáveis durante a limpeza. No quarto e no banheiro, lixeira com pedal, se possível. A limpeza dos cômodos deverá ser feita com o uso de avental, máscara e luvas descartáveis. O lixo recolhido em saco plástico vedado, ou amarrado, e a luva utilizada para descartá-lo, também colocada no lixo, após cada uso. Limpar maçanetas e todos os objetos tocados pelo doente, como interruptores, computadores celulares, com álcool gel, por exemplo. Lavar as mãos com água e sabão, após limpar os cômodos.

BJ: Como se prevenir contra o Covid-19?
Dr. Mendes: Lavar regular e cuidadosamente as mãos com água e sabão ou na impossibilidade o uso do álcool gel a 70%. Este procedimento elimina os vírus presentes nas mãos. Além disso, manter-se a pelo menos dois metros de pessoa com tosse e/ou sintoma respiratório; evitar tocar os olhos, a boca e o nariz com as mãos. Se for tossir e/ou espirrar, cubra a boca e nariz com lenço descartável e/ou papel higiênico, jogando-o na lixeira imediatamente após o uso ou cobrindo a boca e nariz com o antebraço e quando puder lavá-lo com água e sabão.

BJ: Quanto tempo de recuperação?
Dr. Mendes: Os doentes leves ou moderados geralmente entre sete e quatorze dias estão recuperados e devem sempre seguir as recomendações médicas. Os doentes graves podem ficar muito mais tempo, em média entre três e quatro semanas para a recuperação.

BJ: É preciso usar máscaras?
Dr. Mendes: Todos aqueles com sintomas respiratórios devem usar máscara para evitar contaminação de outros. Os saudáveis só usarão a máscara se tiverem de cuidar de pessoas com a doença. O uso da máscara não elimina as demais medidas de proteção, que devem todas ser tomadas em conjunto. Nunca segurar a máscara pela frente ao colocá-la ou descartá-la. Usar sempre o prendedor para fazê-lo.

BJ: Embora em Bragança Paulista não exista nenhum caso confirmado até o momento, a Prefeitura, o Governo do Estado de São Paulo e o Ministério da Saúde têm tomado medidas para evitar a disseminação do vírus. O que o senhor pensa sobre essas medidas (evitar aglomeração, suspensão de atividades, etc.) e o quanto isso pode contribuir para que realmente não haja a disseminação do Covid-19?
Dr. Mendes: O Brasil, notadamente os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sofrem uma grande ascensão de casos da infecção pelo Coronavírus. Nesta fase de transmissão comunitária da doença, que se caracteriza pela expansão vertiginosa de casos, torna obrigatória a tomada de medidas drásticas para reduzir esta expansão. Medidas tais como: permanecer em casa, notadamente os idosos, suspensão de qualquer evento com aglomeração, públicos e privados, como cinema, teatro, futebol, aniversário, fechamento de escolas, shopping centers, etc. Tudo que não é essencial deve ser interrompido nesta fase. Evitar idas frequentes a supermercados e não fazer estoques exagerados de alimentos e produtos de limpeza. Lembre-se: a infecção pelo Coronavírus não tem remédio específico e nem vacina.

BJ: Fica aberto para considerações.
Dr. Mendes: O Brasil enfrenta aquela que se desenha como a mais aguda e grave das epidemias já ocorridas. O vírus se transmite por via respiratória e pelas mãos contaminadas com secreções infectadas. O que explica a rapidez de sua disseminação pela grande capacidade de contágio que o vírus tem. Doença particularmente grave em potencial para pessoas idosas e portadores de doenças crônicas, porém podendo atingir qualquer um em qualquer idade. Os mais saudáveis e os assintomáticos parecem ser os grandes transmissores. Neste momento todas as medidas acima citadas e todas aquelas que vierem a ser tomadas pelas autoridades sanitárias devem ser seguidas rigorosamente, para que se consiga diminuir o numero de casos, e como consequência o de mortes.