Saúde

Agosto Dourado: especialistas tiram dúvidas sobre aleitamento materno

publicado em 31 de julho de 2020 - Por BJD
O curso de gestantes oferecido gratuitamente pela Santa Casa está suspenso por conta da pandemia, mas um formato online está sendo estudado (Arquivo/Santa Casa)

Neste sábado, 1º de agosto, é celebrado o Dia Mundial da Amamentação. Definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a data tem por objetivo estimular ações em todo o mundo para incentivar o aleitamento materno, pelo menos nos primeiros seis meses de vida da criança.

Este também é um mês dedicado ao Agosto Dourado, um movimento voltado à intensificação das ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno.

Michele Sene é enfermeira obstetra consultora de aleitamento materno da Santa Casa de Bragança Paulista

Para contribuir neste cenário e sanar as principais dúvidas com relação à amamentação, a reportagem do Bragança-Jornal conversou com Michele Sene, enfermeira obstetra consultora de aleitamento materno da Santa Casa de Bragança Paulista. O tempo adequado de amamentação, as principais dificuldades das mães e a importância do apoio da família, foram alguns dos temas abordados. Confira:

BJ: Por quanto tempo a mãe deve amamentar?
Michele: Segundo o Ministério da Saúde, a amamentação exclusiva deve ocorrer até os seis meses e após esse período, de forma complementar, até o os dois anos. O que varia são as intercorrências que a mãe pode ter nesse período do aleitamento.

BJ: Desmame precoce é prejudicial?
Michele: Totalmente prejudicial. O aleitamento a longo prazo traz muitas vantagens tanto para a criança quanto para a mãe. A mãe que amamenta mais tempo tem menos chances de desenvolver câncer de mama e de colo de útero, pela própria regulação hormonal. Já a criança que mama tem maior imunidade e desenvolve totalmente o sistema imunológico, trazendo benefícios para a vida toda.

BJ: Existe leite fraco?
Michele: Isso é um mito. Não existe leite fraco, mas sim, uma amamentação inadequada.

BJ: O que é uma amamentação inadequada?
Michele: Quando o bebê não pega direito o seio, apenas o mamilo, as mães sofrem com fissuras. Isso dói bastante e é um sinal de amamentação inadequada. A amamentação pode ser desconfortável nos primeiros dias, mas não deve doer. Lembrando que é preciso avaliar a individualidade, não existe uma receita de bolo. Cada mãe e bebê são únicos.

BJ: Como saber se o bebê está satisfeito com a amamentação?
Michele: O bebê vai ter o padrão de sucção dele e a partir do momento em que estiver satisfeito, ele solta o peito e adormece. Além de dormir, uma criança bem alimentada apresenta padrões de eliminação: diurese e evacuação. Nas consultas com o pediatra, também é importante acompanhar o ganho de peso.

BJ: Quando a drenagem do leite é recomendada?
Michele: A retirada do leite do seio é chamada de ordenha. Ela favorece a mãe no pós-parto, em que as mamas ficam muito cheias e endurecidas. A indicação é a ordenha para deixar a célula mais fácil para o bebê fazer uma pega adequada. É indicada uma ordenha manual, pois o uso de bombinhas pode machucar. O retorno ao trabalho também é um motivo. Embora necessária em alguns casos, a melhor ordenha é sempre a do bebê, direto ao seio.

BJ: Quando fazer uso de fórmula?
Michele: É preciso avaliar o que está acontecendo, pois em muitos casos a correção do aleitamento materno resolve. Casos em que o bebê perde muito peso, aí sim é indicado o uso de fórmula. Há casos também de mamoplastia redutora, que pode acometer o tecido mamário, em que a fórmula é uma opção. A recomendação, nestes casos, é buscar acompanhamento antes mesmo do parto.

BJ: Quais são as principais dificuldades das recém-mães?
Michele: Fissuras, pela pega inadequada, o desentendimento dos padrões normais do recém-nascido e a falta de apoio. A mulher no pós-parto sente muita dor e há uma queda hormonal muito grande. É necessário entender que nos primeiros meses o bebê exige muito da mãe e que a livre demanda é fundamental. A família também pode ajudar, oferecendo ajuda à mãe.

BJ: Uso de dispositivos é aconselhado?
Michele: O uso de dispositivos pode atrapalhar a amamentação. Hoje em dia, as mães vêm com uma bagagem de coisas, como chupeta que não atrapalha a amamentação, bico de silicone para o bebê mamar, concha, pomada que não deixa machucar o seio etc, mas cada situação é uma situação. Eles são prejudiciais, muitas vezes.

BJ: O que reduz a produção do leite?
Michele: Toda mulher é capaz de produzir leite, mas para essa produção ocorrer é necessário ter um bebê que mame da maneira correta. Se o bebê não tem uma pega adequada, um bom padrão de sucção ou não mama em livre demanda, que é quando ele chora, isso pode reduzir a produção dela de leite.

Dicas para a amamentação
Michele conta que a média brasileira é de 54 dias de aleitamento, mesmo com o incentivo, mas por falta de orientação e apoio. A especialista em aleitamento materno reforça que a mãe precisa estar descansada e bem amparada. “Hoje vemos que há uma cobrança muito grande em cima dessa mulher. Ninguém tem dúvida da importância do aleitamento materno, mas o que mais falta hoje é o apoio”, afirma.

A reportagem do Bragança-Jornal conversou também com a nutricionista Raquel Gonçalves Rossi e com a também nutricionista e coordenadora do Ambulatório de Nutrição da Fesb, Taciana Panuncio.

A nutricionista Raquel Gonçalves Rossi explica que uma alimentação saudável durante a gestação mantém um ganho de peso adequado e uma boa produção de leite. “Esta deverá ser composta por frutas, vegetais e cereais integrais, além também de necessitar manter uma boa hidratação, lembrando de beber de 3 a 4 litros de água por dia para manter uma boa produção”, orienta.

Raquel dá ainda mais algumas dicas, frisando a importância da mãe dar preferência aos alimentos in natura e minimamente processados. “Evitar alimentos industrializados, por conterem edulcorantes em sua composição, e bebidas alcoólicas, pois esse álcool é passado para o leite, causando sonolência e irritabilidade no bebê. Não fumar, controlar o consumo de alimentos cafeinados como refrigerantes, energéticos, chá verde, chá mate, chá preto e o próprio café, que em grandes quantidades podem atrapalhar o sono da criança”. Ela também apontou que o estresse pode afetar na produção do leite.

Taciana Panuncio, uma das coordenadoras do Nutrifesb, explica que o recomendado é que a mãe procure ajuda antes mesmo do nascimento do bebê. “Na gestação, a gente consegue cuidar da saúde da gestante, do desenvolvimento do bebê intrauterino e da preparação da mama. Quando a gestante faz o acompanhamento ela geralmente consegue alimentar sem dificuldades”, conta. Taciana explica também que além da amamentação, a introdução alimentar é um momento crucial. “A introdução no tempo certo, com os alimentos corretos e nas consistências adequadas faz toda diferença”, reforçou Taciana.

Onde buscar ajuda
A Santa Casa possui um Laboratório de Apoio à Amamentação, que atende desde as mães da gestação ao pós-parto. Embora voltado para o convênio Santa Casa Saúde, outras pessoas que queiram ser atendidas podem pagar por consulta. O curso de gestantes é gratuito e realizado bimestralmente.

O Hospital Universitário São Francisco (HUSF) dispõe de um serviço especializado de atendimento às gestantes e um Centro Integrado de Humanização para atendimento particular. Os atendimentos via SUS são apenas em urgências e emergências, com guia encaminhada pelas unidades de saúde do município, com exceção do curso de gestantes, que é aberto à população.

O Nutrifesb tem uma Liga Acadêmica de Nutrição, a LAN kids, focada em criar grupos de estudo, campanhas, palestras e eventos voltados ao desenvolvimento infantil e realiza atendimentos ambulatoriais a preço popular. O ambulatório também oferece um grupo de gestantes.

Todos os grupos de gestantes citados acima, no momento estão suspensos por conta da pandemia. A Santa Casa tem estudado um formato online.

A Secretaria Municipal de Saúde, indagada sobre as ações realizadas no município, respondeu ao Bragança-Jornal que todas as orientações voltadas ao aleitamento materno ocorrem durante as consultas de pré-natal e no puerpério, e que elas são realizadas nas unidades de saúde do município.

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