Polícia

Inquérito policial será convertido para homicídio culposo

publicado em 28 de abril de 2018 - Por BJD
Imagem mostra adolescente em aeronave antes do acidente (Foto: Arquivo Pessoal)

Garota de 17 anos que teve 70% do corpo queimado morreu na última quarta-feira, 25

Após a morte da jovem de 17 anos, Karoline Keroly da Silva Romero na última quarta-feira, 25, vítima de um acidente aéreo em 25 de março em Bragança Paulista, o inquérito policial conduzido pelo delegado Sandro Montanari, da Central de Polícia Judiciária (CPJ), que deu início às investigações na esfera criminal em relação ao piloto Lucas Bulhões Bonventi, 38 anos, foi convertido de lesão corporal culposa para homicídio culposo.

“Vamos verificar se o piloto agiu com imprudência – que é fazer o que não deveria ser feito – negligência – deixar de fazer ou imperícia – quando tem a capacitação, mas não age de acordo com a capacitação que possui. Nosso objetivo é apurar a intensidade da culpa do autor e até mesmo verificar se ele assumiu o risco do resultado morte. Estamos apurando também se houve ou não omissão de socorro”, disse o delegado.

 

Delegado Sandro Montanari apura se houve imprudência, negligência ou imperícia do piloto (Foto: Tárcio Cacossi/BJD)

 

Segundo o advogado da família da jovem, Julio Tambaschi, em entrevista ao BJD durante a semana, será pedido ao delegado um novo depoimento do piloto, bem como a reconstituição do acidente.

“Ele alega que retirou a vítima de dentro da aeronave, mas ela disse que não. Como ela pode ter queimado 70% do corpo e o piloto não ter sofrido qualquer queimadura?”, afirmou.

“Por que ele subtraiu o celular da moça? Seria para tentar apagar imagens comprometedoras do voo? Ele alega que os dois celulares ficaram queimados e por isso se evadiu do local para buscar ajuda. Mas como os dois celulares ficaram queimados se no dia seguinte o pai dele entregou o celular à mãe da menina? Se ele tentou apagar as imagens, não conseguiu porque o celular estava bloqueado. Além disso, já que ele estava com o celular, por que ele não ligou para o Corpo de Bombeiros? Lá havia sinal, pois o agricultor chamou o Corpo de Bombeiros. Só que as autoridades de resgate receberam apenas um chamado, que foi do agricultor”, completou o advogado.

“Dependendo das divergências ocorridas nos depoimentos, não descartamos ouvir o piloto novamente, tampouco a reprodução simulada dos fatos. Nosso objetivo é apurar a verdade e subsidiar o Poder Judiciário em uma consequente ação processual penal”, completou Montanari.

O advogado disse ainda estar apurando a situação da aeronave e o histórico do piloto junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Ele divulgou imagens do voo aos órgãos de investigação e à imprensa, gravadas pela própria garota em seu celular.

“Estamos acompanhando as investigações e a conclusão do inquérito para tomar as medidas judiciais cabíveis contra o piloto”, concluiu Tambaschi.

O advogado de Lucas Bonventi, Oswaldo Zago, também foi procurado pelo BJD, mas disse não ter autorização para se manifestar por ora.

CENIPA

A investigação de acidentes aéreos realizada pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) é de natureza administrativa, não criminal, e sua finalidade essencial é a de prevenção de futuros acidentes, por meio da identificação de fatores que tenham contribuído para o evento investigado. O órgão afirmou que os trabalhos relativos à investigação do acidente foram encerrados e não será confeccionado relatório final para esta ocorrência, em consonância com a Norma do Sistema do Comando da Aeronáutica (NSCA) 3-13.

“Segundo esta norma, caberá ao CENIPA a qualquer momento, a interrupção da investigação de uma ocorrência aeronáutica, quando verificar a existência de indícios de crime ou que a mesma decorreu de violação a qualquer legislação aeronáutica em vigor, ou que a investigação não trará conhecimentos novos para a prevenção. No caso desta investigação, foi identificado que a aeronave não possuía documentos que autorizassem o voo, como o Certificado de Autorização de Voo Experimental e a Autorização Especial de Voo”, afirmou em nota o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica.

ANAC

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) abriu um processo administrativo para apurar eventuais irregularidades em relação à licença do piloto e ao registro da aeronave.

“Se constatadas operações irregulares, o piloto e o operador da aeronave serão responsabilizados administrativamente pela ANAC e poderão ser multados e terem seus certificados cassados. Além de responderem sanção administrativa, a agência poderá encaminhar denúncia ao Ministério Público e forças policiais para que sejam tomadas medidas no âmbito criminal”, afirmou a assessoria de imprensa da agência.

ACIDENTE

Conforme apurado pela Polícia Civil, a aeronave, um monomotor anfíbio, se chocou contra um cabo-guarda instalado nas torres de transmissão que existem na área do acidente, numa fazenda no Bairro Bocaina, o que ocasionou a queda e consequentemente o incêndio após o impacto com o chão. O avião ficou totalmente destruído. A adolescente sofreu queimaduras em 70% do corpo. Após o acidente, a vítima foi socorrida por um morador das imediações, até a chegada do Corpo de Bombeiros. O piloto sofreu ferimentos leves e também foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros após ser encontrado numa estrada rural.

 

Avião monomotor anfíbio ficou totalmente destruído (Foto: arquivo/BJD)

 

Karoline ficou um mês internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Centro de Tratamento de Queimaduras (CTQ) do Hospital Irmãos Penteado, em Campinas.

“Ela estava indo bem, fazendo as plásticas, e sua morte pegou a todos de surpresa. Estava programada uma amputação de parte da perna direita. Estávamos esperando uma evolução. Uma tristeza”, afirmou o advogado da família, Júlio Tambaschi.

A jovem foi sepultada na tarde de quinta-feira, 26, no Cemitério Flamboyant, em Campinas, cidade onde residia.