Colunistas

Trevas densas

publicado em 19 de setembro de 2020 - Por Pastor Jessé

Num simpósio de educadores no outono de 1987, na prestigiosa Universidade de Harvard, um dos palestrantes foi Dr. Frank Rhodes, reitor da também prestigiosa Universidade Cornell. Ele discursou que a época exigia que as universidades focassem com “atenção real no bem-estar intelectual e moral dos alunos”. Um aluno, exaltado, gritou: “Quem vai dar essa instrução? Qual moralidade nós vamos seguir?” O auditório reagiu com aplausos. E Frank Rhodes se sentou sem responder.

Assim como Dr. Rhodes, a sociedade atual não tem a resposta. Qual moralidade? Qual é a referência que define a moralidade? Seria a moral da vontade do indivíduo, seja lá qual for? Seria a moral da inclinação do consenso social, seja lá qual for? Certo e errado são relativos, podem mudar sempre e seja para o que for? Muito se fala, eruditos concatenam, surgem opiniões diversas, mas é um andar em círculo que não consegue apontar o caminho. Falta a referência norteadora.

Impera a escuridão total, fomentando a destruição: drogas, crime, corrupção, violência, vida vazia e sem significado, falência da família, educação relativista, ser humano como mera química, sexo do próximo como objeto, ciência eticamente cega e adoração do materialismo e hedonismo.

Aleksandr Solzhenitsyn, escritor Russo contemplado com o prêmio Nobel, falecido em 2008, saiu da longa detenção na União Soviética e se exilou nos EUA. Havia conhecido e combatido firme a malignidade do marxismo. Mas, ao observar o ocidente capitalista, apontou: “A luta, física e espiritual, pelo nosso planeta, é uma luta de proporções cósmicas. E não é um assunto vago do futuro.

Ela já começou. As forças do mal têm iniciado uma ofensiva decisiva. Vocês sentem a pressão, porém, suas telas e publicações estão cheias de sorrisos e brindes estampados. Sobre o que é essa alegria?” A sociedade ri e festeja nas trevas. É um gargalhar para a morte.

As ciências humanas se desnorteiam ao adotarem “o homem como a medida de todas as coisas”. E as ideologias ficam aquém por focarem numa faceta apenas. A tese marxista se equivoca e fracassa ao falar em justiça socioeconômica como central, sem primeiramente embasar a moral. O capitalismo defende a primazia da liberdade econômica sem antes adotar um parâmetro moral. Marxismo e capitalismo reduzem ao raso econômico a profunda essência da existência humana.

O marxismo ignora que qualquer ato de justiça socioeconômica é resultado primeiramente do embasamento moral, e não o contrário. E assim, marxismo é sempre desastroso. E a liberdade empreendedora, pregada pelo capitalismo, se torna selvagem por não ter, antes e acima do econômico, uma referência moral. E mais, condição econômica confortável em si, independente de qual ideologia, não redime moralmente o ser humano.

O mal não respeita divisões de classe, seja socioeconômica, intelectual, política ou ideológica. Isso é comprovado pelo acompanhar do noticiário ou escutar a conversa dos conhecidos. O experiente Solzhenitsyn afirmou que o mal corta todos corações humanos e partidos políticos. C. S. Lewis, o renomado professor de Oxford e Cambridge, já apontava há décadas que: “O maior mal não é realizado nos recantos sórdidos do crime… Ele é concebido… desenvolvido… planejado… em escritórios acarpetados, aquecidos, e bem iluminados, por homens calmos com colarinho branco… que não precisam erguer suas vozes”.

Nunca o mundo ocidental foi cristão. E nunca, numa dada nação, todos foram verdadeiros discípulos de Cristo. E nem mesmo uma maioria o foi. Porém, no passado, o ocidente era impactado, para melhor, pela influência dos valores de Cristo conforme as Escrituras. A sociedade sempre foi imperfeita, mas já foi mais lúcida quanto ao equacionar seus dilemas morais. Ela tinha os parâmetros das Escrituras Sagradas.

Era crido que o ser humano foi uma criação especial de Deus, tendo assim um valor intrínseco, que dignificava tanto o indivíduo como o seu próximo. E sendo criado com gênero definido e evidente, o matrimônio heterossexual era a base fundamental dada por Deus à humanidade. Como criatura, o ser humano tinha, em Deus, um propósito transcendente e eterno para sua existência. Bem como o ser humano vivia sob o olhar moral e justo de Deus. E o caráter de Deus era a suprema referência moral.

Mas, essa luz foi rejeitada. E não há outra que a substitua. Ainda que não tendo a visão cristã, as palavras de Dio Crisóstomo, pensador grego do primeiro século, são elucidativas: “Como homens com olhos feridos, eles evitam a luz por a acharem dolorida, enquanto as trevas, que não permitem que vejam, são preferidas por assim serem agradáveis e concordantes”. Porém, é possível se libertar. Aquele que se submeter ao desconforto da luz, não andará em trevas. Jesus declarou: “Eu sou a luz do mundo! Quem me segue nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12).