Colunistas

A reinvindicação internacional de um olhar integrado ambiente – economia

publicado em 6 de novembro de 2018 - Por Ambiente em Pauta

A ideia de preservação ambiental como ativo pode parecer muito nova, mas, na realidade, na maior parte da história os homens obtiveram da natureza bens reconhecidos e incorporados pela organização social e cultural de cada grupo até o início da era industrial.

As rupturas do viver contemporâneo urbano neste ecossistema híbrido que criamos, nos apartou desta percepção, que agora passa a ser reintroduzida na economia como denominação de ativos ambientais, serviços ecossistêmicos, entre outros. Essa visão pode ser encontrada, por exemplo, no Plano Nacional de Meio Ambiente (fase II, 2009-2014), onde o componente de gestão integrada de ativos ambientais faz parte.

Neste plano, assumem o desafio de criar modelos de desenvolvimento sustentável envolvendo os diversos setores produtivos. Neste contexto, ativos ambientais no programa são considerados um bem comum, sendo, portanto, os recursos ambientais, tais como ar, solo, água, cobertura vegetal, etc. que possuam ou não uso direto e indireto na base da prestação de serviços ecológicos que sirvam a sociedade.

No caso do conceito de serviços ecossistêmicos, esses são definidos de modo geral como os benefícios que as pessoas obtêm de ecossistemas funcionais. Eles incluem serviços reguladores como clima, purificação da água, qualidade do ar, serviços de apoio de ciclagem de nutrientes, serviços culturais e científicos.

Mas para grande parte da população o conhecimento e percepção destes serviços é algo absolutamente ignorado e a abordagem vinculada estritamente ao sentido utilitário convencional da economia de “benefícios” parece estreitar apenas ao que é tangível em tais serviços ambientais. Longe de uma abordagem romântica de resgate da natureza, cabe destacar que esse assunto é pauta internacional e tem orientado agendas políticas em todo mundo. Seu interesse recente foi estimulado por estudos como um realizado em 1997, publicado pela Nature, que estimou os serviços ecossistêmicos anuais num valor muito maior que o produto interno bruto global da época.

Em 2005 a Organização das Nações Unidas publicou o Relatório Avaliação Ecossistêmica do Milênio, apontando três pontos cruciais de enfrentamento e tomada de decisões em relação aos ecossistemas e bem estar humano: degradação acelerada dos serviços dos ecossistemas; maior probabilidade de mudanças não lineares, entre elas colapso da produção pesqueira, surgimento de doenças, introdução e perda de espécies e mudanças climáticas regionais, e a exacerbação da pobreza – os pobres são mais dependentes de serviços ambientais e vulneráveis a degradação. Isso numa escala de país compromete países como o Brasil, ainda fortemente apoiados numa economia agroexportadora.

O Brasil possui um dos maiores ativos de interesse global, além dos diversos ativos altamente relevantes do ponto de vista regional e local para economia, mas os têm tratado de forma ainda menos expressiva do que deveria. Neste ano, um outro sinal claro da relevância da relação economia-ambiente numa perspectiva integrada e altamente interdependente: o tema foi ganhador do Prêmio Nobel de Economia, cujos estudos trataram da relação entre clima, inovação e crescimento.

Os desafios são enormes, e as diretrizes mundiais apontam para isso. Contudo já é possível ver algumas ações concretas em escala local que propõem uma nova ética para criar os caminhos na relação entre ambiente e economia. Quer conhecer algumas destas experiências e proposições? Veja o Documentário: Demain (França, 2015), Direção Cyril Dion, Mélanie Laurent e boas reflexões!

Patricia Martinelli – Geógrafa, colaboradora do Coletivo Socioambiental Bragança Mais