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A bola e a vida rolam

publicado em 14 de julho de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

O verbo rolar tem um significado especial para o tema que pretendo desenvolver aqui: avançar ou fazer avançar, girando em volta de si mesmo. O princípio do movimento não está fora, está na própria bola ou na essência da própria vida. Isso ocorre no desenvolvimento de uma carreira de atleta, ocorre nas relações familiares, ocorre nos encontros e desencontros inerentes ao desenvolvimento da vida pessoal e familiar.

Já vi algumas vezes que um mesmo pai e uma mesma mãe tenham avaliação diferente, ou até mesmo discrepante, por parte de cada um dos filhos. Um destes pode considerar o pai como sendo um herói presente, atento aos detalhes, sempre atento. Outro filho pode avaliar a atuação do mesmo pai como sendo ausente, ríspido ou desinteressado. Quase sempre a dedicação do pai é a mesma para cada um dos filhos, mais comumente o que muda é a percepção do filho em relação ao pai.

Vi outro dia uma rápida chamada no noticiário relativa ao pai do jogador Paulinho, da seleção brasileira. A reportagem chamava a atenção para o fato do pai do atleta assistir aos jogos da seleção num aparelho de TV precário, cheio de chuviscos. Fiquei curioso quanto às relações recíprocas desse pai e desse filho.

Descobri então uma reportagem de 2012, quando Paulinho viu o pai depois de 12 anos de separação, sem qualquer encontro nesse período, apenas poucas e distantes conversas telefônicas. Esse encontro aconteceu num estádio do Recife, em que o pai compareceu para ver ao vivo um jogo de seu filho famoso. Paulinho aproximou-se do alambrado, mantiveram um contato de dedos e se beijaram, mesmo separados naquele momento pela tela do alambrado.

Depois de muitos anos, foi um encontro rápido, carinhoso, trocaram poucas palavras e fizeram mutuamente promessas de estreitarem relações. O atleta relatou depois que o pai saiu de casa ao se separar de sua mãe, voltando para o Nordeste, o que impediu a convivência. Sadan, em sua coluna do último sábado, informou que além do Paulinho, outros seis jogadores da seleção de Tite foram criados pelas mães sem a ajuda dos pais: Gabriel Jesus, Taison, Casemiro, Marcelo, Miranda e Cássio. O Jornal francês Le Monde prestou recentemente uma homenagem a essas sete mães por terem criado e educado sozinhas esses filhos bem sucedidos.

Hoje é muito comum o distanciamento entre pais e filhos, por diversos motivos. À primeira vista parece negligência dos pais. Algumas vezes se trata de abandono de incapaz. Ainda mais frequentemente isso ocorre pelas exigências da sobrevivência, por separações ou distanciamento. O tempo, como sempre, corre veloz, passam dias, meses e anos sem que a convivência natural e necessária ocorra.

Sofrem os filhos e sofrem os pais nessas situações. Sofrem os que partem, sofrem os que ficam. A dor da separação é aguçada pela sensação de abandono, pelo remorso ou pela sobrecarga de pais que assumem sozinhos a criação de filhos quando um dos genitores se afasta. Filhos ou filhas, em geral, sentem muita falta daqueles que partem ou desaparecem. Fica sempre um enorme vazio. A sensação de abandono é sempre muito dolorosa, angustiante, capaz de gerar inseguranças importantes. Muitos filhos abandonados empenham o melhor das suas energias na busca daquele que se ausentou.

Casos como esses são hoje muito comuns. O reencontro, quando acontece como no caso do Paulinho, não é fácil de ser vivido. Parece um sonho e, ao mesmo tempo, uma enorme tarefa. Como resgatar a convivência? Como unificar modos de vida tão diferentes e distantes? Como estabelecer uma nova relação que seria natural entre pais e filhos, que em casos como esse não é espontâneo? Como amenizar as mágoas?

Isso acontece em casos extremos quando uma das partes desaparece durante muito tempo. Acontece também entre pais e filhos que vivem numa mesma casa. E entre pais e filhos que residem numa mesma cidade, mas em casas diferentes, devido a separações e a novas uniões. A tarefa de manter relacionamento intenso e próximo não é simples, mas faz enorme diferença para um crescimento sadio, para uma convivência harmoniosa e, certamente, para a felicidade de cada um dos indivíduos envolvidos.

Escrevi na semana passada sobre o passado e o presente de Bragança Paulista no cenário regional, estadual e nacional. Um leitor lembrou-me da Estrada de Ferro Bragantina, que funcionou entre 1884 e 1967, também marca de pioneirismo e desenvolvimento local. Alexandre Markowicz, por sua vez, enviou-me vários recortes de grandes jornais de 1957, quando Bragança se destacou no então inédito campo da sustentabilidade.

A Folha da Manhã noticiou: “A Fazenda Santa Helena obteve o primeiro lugar entre as propriedades que se destacaram em 1957 pela aplicação de práticas conservacionistas. Coube à Sra. Petronila Markowicz o título de campeã conservacionista do Estado de São Paulo”. Grato aos leitores pela contribuição.