Empregos

Férias

publicado em 17 de abril de 2018 - Por Leandro Nomura / Folhapress

Paranoia de demissão pós-férias não é razão para adiar descanso

Depois de três anos trabalhando sem férias numa agência de publicidade, o programador Victor Rodrigues, 28, decidiu tirar 30 dias de descanso. Quando voltou, foi demitido com a justificativa de corte de custos.

Desde então, o período de descanso garantido pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) nunca mais foi sinônimo de paz e sossego para Rodrigues. “É um trauma”, conta ele, que agora trabalha numa grande empresa de tecnologia, onde diz se sentir mais seguro. “Mas sempre fica a desconfiança.”

Casos como esse não são raros, de acordo com Lidiane Miquilini, da consultoria P2B Capital Humano.

Por uma questão financeira, muitas empresas aproveitam a oportunidade para demitir. “Elas não querem pagar indenização com férias pendentes.”

O coach de carreiras Maurício Sampaio explica, no entanto, que trabalhar sem descanso também não é garantia de permanência no emprego. Ao contrário, o profissional “workaholic” não é bem visto no mercado.

“Quem passa mais do que dois anos sem tirar férias perde capacidade de reter informações e fica menos pró-ativo. É uma bomba-relógio”, diz Sampaio.

Christian Barbosa, especialista em produtividade, concorda. Para ele, a pausa é importante para o trabalhador melhorar a performance. O tempo necessário para que isso ocorra é variável. “Há quem consiga ‘desligar’ depois de três dias dentro de casa. E tem gente que só depois de 15 dias”, explica.

Porém tirar 30 dias de férias direto não é uma opção para profissionais de algumas áreas e para quem ocupa cargos mais altos.

“Diretores e presidentes costumam tirar férias picadas, porque as tomadas de decisões são deles. A ausência desse profissional gera um impacto muito maior no negócio”, afirma Miquilini.

Funcionários do mercado financeiro também encontram dificuldades de férias longas por causa da volatilidade da área.

“O corretor de valores sai de férias com a possibilidade de aprovação da reforma trabalhista. Ela não é aprovada, o dólar dá um pico e os fundos caem. Ele precisa voltar, caso contrário perde dinheiro”, exemplifica Barbosa.

O programador Victor Rodrigues, 28, e sua noiva, a publicitária Tabhyta Wohlers, 29

 

TREINAMENTO

As férias também podem ser uma oportunidade para crescimento na carreira.

A Elektro usa o período para treinar funcionários para as sucessões internas. A empresa implantou um sistema no qual todos os colaboradores preenchem um formulário com suas informações profissionais, além dos cargos que almejam alcançar.

O mais preparado assume a vaga que deseja durante as férias do titular. Se for bem sucedido, passa a ser avaliado para uma eventual substituição definitiva.”Eu tenho três opções: diretor de serviços, diretor de operações ou diretor comercial”, diz Bruno Szarf, 34, executivo de recursos humanos, comunicação e segurança. Ele foi escolhido para cobrir as férias do responsável pela área de serviços no mês que vem.

Mesmo com esse treinamento para sucessões, o executivo afirma que não há o receio na empresa de os funcionários serem substituídos compulsoriamente quando voltam do recesso. “Na cultura que nós temos hoje, se você quer pleitear uma nova vaga, é preciso ter algumas pessoas para assumir o seu lugar”, afirma.

Em 2014, quando era recepcionista de uma agência de propaganda, a publicitária Tabhyta Wohlers, 29, treinou uma colega para ficar no seu lugar durante as férias. Noiva de Victor Rodrigues, ela conta que, por conta da experiência traumática do companheiro, ficou com receio de ser mandada embora, mas acabou tendo uma surpresa quando voltou do descanso.

“Fui promovida para uma vaga de atendimento. Eles já sabiam que eu queria, que tinha experiência, mas queriam que eu treinasse alguém para o meu lugar na recepção”, diz Wohlers.

Bruno Szarf, 34, executivo de RH, comunicação e segurança da Elektro, de Campinas.

PLANEJAMENTO

Na hora de tirar férias, rotina flexível não é garantia de sossego de profissionais liberais, como médicos, dentistas e empresários. Nesses casos, os receios são financeiros ou por excesso de centralização do trabalho.

“Desde que você avise o seu cliente, você pode parar a qualquer momento. Mas é preciso planejamento, pois nesse período não vai ter receita”, afirma o coach de carreiras Maurício Sampaio.

Dono de uma consultoria de marketing e de um bufê, o empresário Cleber Nunes, 41, ficou oito anos sem férias porque sentia que sua ausência poderia afetar os negócios. Até que, em 2008, acabou internado com uma crise de estresse e obrigado pelo médico a tirar alguns dias de descanso.

Depois do susto, Nunes começou a dar mais valor para os períodos de folga. “Percebi que essa história de trabalhar 14 horas por dia sem parar é um conceito furado de empreendedorismo. É possível produzir de uma forma equilibrada. Agora tiro várias férias”, diz ele, que folga por um período de até 60 dias por ano, em pequenos blocos de uma semana.

FERIADO ESTENDIDO

Nunes segue os conselhos do especialista em produtividade Christian Barbosa, para quem esses profissionais devem aproveitar as emendas dos feriados para descansar.

“Quando cai numa quinta-feira, ele pode parar a semana toda. De um sábado ao outro domingo, são nove dias de descanso”, explica.

“O cliente tem a sensação de que você está sempre presente. E você tem a sensação de que está sempre de férias.”

 

 

Plano de folga: Como descansar sem culpa

 

Escolha a época
Planeje o descanso com seis meses de antecedência. Negocie o período com seu chefe para não sair em momentos-chave

 

Prepare o terreno
Treine alguém que possa lhe substituir. Caso não finalize algum projeto, liste o que esteja em “stand by” e faça um roteiro dos processos internos

 

Fique off-line
Durante as férias, viaje para um destino longe da sua cidade e mude a rotina. Não acesse e-mails e peça para sair dos grupos do WhatsApp

 

Atenda ao telefone
Não deixe de atender ligações do trabalho. Pode ser urgente. Se não for, explique que está de férias e que há uma pessoa treinada substituindo você

 

Fatie a folga
Profissionais liberais e empresários podem fatiar as férias em vários períodos. Dê preferência a feriados que podem ser emendados

 

Não trabalhe demais
Não fique mais do que dois anos sem férias. A produtividade cai e ser “workaholic” não é bem visto no mercado de trabalho