Editorial

Pandemia: tempo de temer ou desejar a aproximação?

publicado em 20 de março de 2020 - Por BJD

As relações dentro de uma família são inexplicáveis. O amor de pais para filhos e, especialmente de avós para netos, não há receita que descreva, muito menos tutorial online.

Em tempos de pandemia, a recomendação é clara: não sair de casa. Hoje em dia, isso não parece ser difícil, já que vivemos em um mundo informatizado. As funções dentro da empresa podem ser feitas de casa, o famoso home office. As férias escolares e de muitos profissionais podem ser antecipadas. Os eventos adiados e até mesmo as atividades do dia a dia suspensas por tempo indeterminado. Mas, tem uma coisa que não dá para distanciar: os avós dos netos.

Eles, os avós, compõem o amplamente discutido grupo de risco. Por serem mais vulneráveis a doenças infectocontagiosas, o agravamento do Covid-19 pode levar as pessoas acima de 60 anos a óbito. A idade mais avançada representa experiência, mas também um déficit no sistema imunológico, a ineficiência de vacinas tomadas há muitos anos e órgãos mais frágeis. A ida recorrente ao hospital também traz uma enorme exposição a micro-organismos. Tudo isso agrava o comportamento do novo vírus no organismo e faz com que uma das recomendações voltadas aos mais velhos seja o distanciamento dos pequenos.

Manter as vacinas em dia está entre as orientações possíveis de serem colocadas em prática para os avós. O problema começa a aparecer quando se diz que não deve haver contato com outras pessoas. E isso se torna uma recomendação inadmissível quando eles se dão conta de que o contato deve ser restrito também aos netos.

Sim, aqueles que são filhos duas vezes, aqueles aos quais se prepara um lanche diferenciado, aqueles que cansam, mas também ensinam.

E por que se distanciar de um neto é tão absurdo assim? Porque são os avós os responsáveis por grande parte das crianças durante a infância. Porque os avós são o braço direito dos pais que saem todos os dias para trabalhar. Porque contrair uma doença parece nem ser tão grave assim a ponto de ter que se distanciar.

As crianças costumam ter muita energia, o que contagia. Elas são carinhosas e não há grupo de risco capaz de impedir uma avó de realizar o desejo de um neto, seja o de colocar um desenho para assistir e a providenciar sua comida favorita. Para as crianças, as consequências da contaminação do coronavírus podem não ser tão grandes, mas elas têm um alto poder de propagação.

As crianças podem, inclusive, nem apresentar sintomas imediatamente, mas é no abraço ou por meio de um espirro inocente que elas podem contaminar os tão amados avós. Mas a pergunta que fica é: os idosos estão realmente preocupados com isso? Talvez não!

Conforme as coisas vão acontecendo na vida, é possível perceber que alguns medos passam a ser mais preocupantes do que outros. O medo de um avô não poder ver seu neto passa a ser maior do que o medo de ser infectado. Especialmente em tempos de medo generalizado, um abraço é importante, e a presença, fundamental. Quando nos sentimos ameaçados, buscamos ainda mais um abrigo, um consolo, e com os avós não seria diferente.

E por isso, para muitos idosos, o pânico é ainda maior, mas não pelo medo do contágio, mas pelo medo do isolamento. Ou melhor, o medo do que esse distanciamento pode causar. Para os avós, “tempo indeterminado” é muito tempo.

Embora seja melancólica essa situação, o momento exige prudência. Há formas para amenizar o distanciamento. Por meios eletrônicos, é possível fazer chamadas de vídeo e colocar “frente a frente” pais, filhos e netos, ‘reunir’ a família de forma online. É paradoxal, mas talvez nunca o uso da tecnologia tenha sido tão importante para “aproximar a família”.

O distanciamento social e familiar é rígido, contudo benéfico a todos, principalmente aos avós. Sejamos resilientes… vai passar!