Editorial

Greve, locaute, desabastecimento: apoio ou comprometimento

publicado em 2 de junho de 2018 - Por BJD

Paralisação é a palavra mais usada pelos brasileiros nos últimos 10 dias. Parar é apenas uma etapa de um longo processo. A retomada é sempre mais lenta, requer muito esforço e tempo. Muitos bragantinos já se defrontaram com interdição da Fernão Dias para obras de reparo, já sofreram por não terem qualquer controle sobre a situação. Principalmente em subidas, perceberam que a aceleração é muito lenta. A impaciência é companheira assídua nessas ocasiões. Poucos compreendem a situação, nem todos estão dispostos a dar apoio.

Assim ocorreu na chamada paralisação dos caminhoneiros. No início, eles contavam com a simpatia de muita gente e o apoio de alguns segmentos da sociedade. Assim que as consequências começaram a se fazer presentes nos postos de combustíveis, nos supermercados e nas residências, a intensidade do apoio foi se pulverizando. Há uma grande diferença entre comprometimento efetivo, custe o que custar, e o apoio meramente opinativo.

Logo surgiram dúvidas importantes: quem efetivamente comanda essa greve? É greve ou locaute? Por que os combustíveis deixaram de sair das distribuidoras? Quando a situação voltará à normalidade? Por que medidas anunciadas pelo Governo não estão resultando em solução imediata ou progressiva?

Preocupante mesmo foi o desabastecimento. Logo despertou uma espécie de pânico, cada um correndo por si. Nessas horas o bom senso quase desaparece, episódios de conflitos se multiplicam. Postos cheios de motos, confusão de galões inusuais e longas filas não são coisas bonitas de se ver, parecem cenas de guerra. Historicamente, os brasileiros já passaram por várias crises.

No artigo “Modernização, crise e protesto popular: a questão do abastecimento nos anos 50”, Sydenham Lourenço Neto indica que a expansão da industrialização e o êxodo rural geraram alguns desequilíbrios. Em 1952, o desabastecimento de carne levou a população em Belo Horizonte a reagir depredando cinemas, açougues e armazéns, enquanto no Rio Grande do Sul, populares atacaram caminhões que faziam transporte de carne e outros produtos alimentícios.

Ao longo dessa década, os jornais registram problemas de abastecimento envolvendo produtos importantes como carne, arroz, feijão, leite, trigo e até mesmo açúcar. Crises no abastecimento desses produtos parecem ter sido comuns por mais de dez anos, contudo, os períodos mais críticos, ou pelo menos aqueles em que reações populares foram mais visíveis são 1952, 1958, 1959 e 1962.

Os protestos populares mais conhecidos e também mais violentos ocorreram na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, entre o fim de 1961 e início de 1962. Nesse período uma série de ataques a caminhões que transportavam mercadorias ocorreram em Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro.

A violência explodiu de forma incontrolável em junho de 1962 quando por toda a zona norte do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, ocorreram saques e depredações, provocando a intervenção da polícia e até mesmo do exército. Pouco tempo depois, em 1964, a fragmentação política levou à tomada do poder pelos militares.

Hoje, alguns cidadãos veem os militares como saída para os problemas atuais. Convém ter presente que, durante o período da ditadura, a inflação foi de 5,3% a 242,2% ao mês, que a dívida externa foi de 6% a 70% do orçamento. Muitas das empreiteiras que protagonizaram corrupção nos últimos anos surgiram nessa época. E o pior: conforme a Comissão Nacional da Verdade, cerca de 2 mil pessoas morreram por discordarem dos rumos dados ao país.
Mais perto de nós, aconteceram outros episódios de grave desabastecimento.

Em 1986, o Plano Cruzado, do presidente Sarney e do ministro Funaro, resultaram em prateleiras vazias em todo o território nacional. A carne desapareceu, foi necessário o confisco de bois no pasto para garantir um mínimo de abastecimento. Recentemente a crise hídrica, tão comum no Nordeste, causou forte pânico em São Paulo, também com cenas de desespero e um necessário aprendizado de acentuada economia no consumo de água.

Desabastecimento é coisa séria. O equilíbrio social, já precário em função de grandes diferenças sociais e econômicas, passa a correr grandes riscos de desiquilíbrio. Pesquisa feita nesta semana pelo Datafolha indicou alta aprovação popular à greve dos caminhoneiros, principalmente nos primeiros dias. Número maior ainda sinalizou que Temer demorou para agir. Alguns analistas concordam que essa aprovação é, na prática, inconformidade com a atual condução política do país.

Observa-se então uma grande diferença entre os que apoiam à distância a paralisação e aqueles que estão efetivamente comprometidos com esse tipo de protesto. Cabe aqui a estória contada em muitos treinamentos empresariais: na elaboração de uma omelete dá-se o apoio da galinha que oferece o ovo e o comprometimento do porco que entrega o bacon. A primeira continua viva, oferece apenas o desconforto de botar o ovo. Já o porco oferece a própria vida, para que seja possível a retirada do toucinho.

Ainda não ficou claro se ocorreu uma greve: movimento de trabalhadores em busca de melhores condições de trabalho ou um locaute (lockout): paralisação de trabalhadores estimulada pela direção de empresas, a fim aumentar sua lucratividade. Ou teria sido simultaneamente greve e locaute? Duas coisas chamaram muito a atenção. Durante dias nenhum caminhão saiu com combustível das refinarias. De repente, num mesmo dia, vários postos da cidade receberam combustíveis. Como foi possível essa aceleração rápida e intensa?

Os prejuízos desses dias pesam muito em diversos setores produtivos e causaram desgastes importantes para cidadãos das mais diversas ocupações. A história de desabastecimento no Brasil e em outros países confirma que ele sempre gera grande sofrimento. As reivindicações justas merecem todo apoio e o melhor dos comprometimentos. No entanto, para além da boataria, o atual quadro econômico, social e político requer análise profunda e bom senso. 2018, com eleições gerais, é um ano chave para o futuro do país.

As alternativas não são muitas, a necessidade de acertar é inadiável. O bem-estar dos brasileiros requer atenção, estudo, análise, comprometimento e voto certo em outubro. Antes, novas greves, caso ocorram, não nos são alheias. Em tempos de mídias sociais e fakenews (notícias falsas ou boatarias), as greves requerem profunda observação, ressalvas quando equivocadas, apoio ou comprometimento quando justas e legais.