Editorial

Editorial: Vírus invisível revela graves fraturas sociais

publicado em 30 de abril de 2020 - Por BJD

Primeiro de maio, Dia do Trabalhador, é uma data historicamente muito comemorada por trabalhadores, sindicatos e vários segmentos sociais.

Costuma ser uma forma de destacar a importância do trabalho, assim como manifestar alguma força dos sindicatos e suas federações. Esse 1º de maio passou quase em branco, pelo menos não repetiu o porte de eventos realizados nos últimos anos.

Todos sabemos o motivo. É tempo de ficar em casa, de fazer frente aos avanços da pandemia. De per si, esta é grave, gerando insegurança, ameaças e tentativas de controle. É grande a torcida para que isso ocorra muito brevemente, de forma definitiva, sem reincidências. Somente visões muito estreitas ou estúpidas não estão dando conta de que nossa fragilidade econômica e social é altamente preocupante no presente e no futuro próximo.

A corrida de trabalhadores e de cidadãos de todas as idades ao auxílio emergencial disponibilizado pelo governo está sendo muito maior do que os órgãos de planejamento estatais calcularam inicialmente. Esperavam cerca de 35 milhões de pedidos. Já ultrapassou a casa de 45 milhões. Se considerarmos que cada um desses brasileiros tenha pelo menos mais uma pessoa em casa, estamos diante de 90 milhões de pessoas, quase a metade da população brasileira.

Conforme critérios do auxílio emergencial, a pandemia está trazendo à luz um contingente absurdo de pessoas extremamente pobres: “É maior de 18 anos, não tem emprego formal, não recebe benefícios previdenciários, assistencial ou seguro-desemprego, com renda mensal de até R$ 522,50 por pessoa, está desempregado, é trabalhador informal ou exerce atividades como microempreendedor individual”

Consequentemente, são brasileiros que moram precariamente, se alimentam mal, têm dificuldades de acesso a serviços de saúde, estão fora do mercado de trabalho, sem qualquer perspectiva de poupança ou de investimento para uma vida melhor. Esse contingente, há muito tempo, não tem motivos para comemorar, como os trabalhadores formais não tiveram neste 1º de Maio.

O enfrentamento da pandemia está requerendo grande empenho de todos, é grave, mas tem uma perspectiva de tempo relativamente breve. Por sua vez, a precariedade de trabalho e renda de quase metade da população brasileira também é muito grave, certa e tristemente, demandará de todos nós muito mais tempo e energia. Essa fratura estava diante de nós e não a víamos com a dimensão que se nos apresenta neste momento. Conseguir enxergar e buscar dados para uma análise constituem um primeiro passo para a ação que se faz necessária.