Editorial

Editorial: No próximo sábado, dia 30, Bragança-Jornal interrompe circulação de quase um século

publicado em 23 de janeiro de 2021 - Por BJD

A década de 1920 foi promissora para Bragança. Ainda não tinha recebido o complemento de “Paulista” em seu nome. Sob a forte influência do ciclo do café, ocorreu a fundação do Grupo Escolar José Guilherme, a criação da diocese e a chegada do primeiro bispo Católico, a inauguração de curso de prática do comércio, a fundação do Clube Atlético Bragantino. Já havia o Colégio das Madres.

Na virada da década, teve início o funcionamento do Colégio São Luiz sob administração dos padres agostinianos no prédio do antigo Teatro Carlos Gomes. Já forte na agricultura, o município recebeu as primeiras indústrias e boas escolas, que passaram a receber alunos de variadas partes do Estado. A ligação com a capital e com o sul de Minas se dava por meio da Estrada Ferro Bragantina. Isso tudo irrigava o comércio local.

Nesse contexto progressista de desenvolvimento econômico, cultural e social, surgiu o Bragança Jornal, fundado por José de Oliveira, com o apoio de José Thomazini e Oswaldo Russomano. A primeira edição data de 18 de junho de 1927. De lá para cá, as boas notícias e as preocupantes foram registradas em suas páginas ininterruptas. Assim foi com as fundações da Sociedade Sinfônica, Associação Comercial, Escola de Comércio Rio Branco, Aeroclube de Bragança, início das linhas de ônibus intermunicipais, criação do Parque de Exposição Fernando Costa, criação do Ginásio Estadual Cásper Líbero, ida e retorno dos expedicionários bragantinos que lutaram na Segunda Guerra, chegada dos padres do PIME, que iniciaram o desenvolvimento da zona norte e rural, construção da Rodovia Fernão Dias, encerramento da Estrada de Ferro Bragantina, inauguração das rádios bragantinas, surgimento de outros jornais, inauguração de vários cinemas na cidade, a imigração japonesa, desmembramento dos distritos de Pinhalzinho, Pedra Bela, Tuiuti e Vargem, e a implantação dos cursos de Direito e de Medicina que foram o núcleo original da Universidade São Francisco e de outras instituições de ensino superior. Noticiou a chegada de outras indústrias, a expansão do comércio e a inauguração do shopping, que simultaneamente introduziu novidade e preocupação aos lojistas tradicionais.

Inaugurações, festas, catástrofes, ocorrências policiais graves, derrotas e conquistas, encerramento de atividades de cinemas, jornais, indústrias e casas comerciais, editais públicos de todos os tipos e muito mais estão registrados nas páginas de 14.720 edições integralmente armazenadas na redação do Bragança-Jornal. Todas as eleições desde 1927 encontram-se registradas em nossas páginas.

Três governadores, todos os 33 prefeitos bragantinos desse período, numerosos deputados e a maioria dos vereadores estiveram na redação para apresentar suas propostas e feitos. Da mesma forma, líderes comunitários, religiosos, empreendedores, líderes sindicais e grupos artísticos também foram presenças assíduas e sempre bem acolhidas na sede do Jornal.

O momento está difícil para jornal impresso

Há algum tempo os atuais diretores do Bragança-Jornal buscavam alternativas para manter o seu tradicional papel econômico, social, histórico, cultural e informativo, dando continuidade ao estreito relacionamento com leitores, assinantes, anunciantes e sociedade bragantina. Mas as contas teimavam em fechar no vermelho. Também pressionados por uma economia em crise, agora agravada pelas consequências nefastas da pandemia do novo coronavírus, os anunciantes ou diminuíram quantidade e tamanho dos anúncios ou suspenderam sua veiculação.
Outro fator reside na forte entrada das mídias sociais como veículo de informação. Embora ainda não alcancem o rigor jornalístico e a credibilidade dos jornais impressos que contam com a técnica e a responsabilidade de jornalistas, ganham na agilidade e na redução de seus custos operacionais.

Há alguns anos, as bancas eram procuradas logo cedo e dispunham de vários jornais com grossos cadernos, assim como de variadas revistas. Muitas já encerraram ou se dedicam a outras atividades. Todo consultório ou escritório dispunha de jornais ou revistas em sua sala de espera, hoje cada cliente faz o tempo de espera passar com o seu próprio smartphone.

Infelizmente esse ambiente adverso não atinge apenas o nosso jornal que caminhava para um século de atuação. O Portal Poder 360 informa que 1.800 jornais impressos fecharam as portas nos EUA de 2004 a 2018. E complementa: “quem mais sofre são os jornais locais”. Por sua vez, Meio e Mensagem informa que o Brasil perdeu 8 grandes jornais impressos em 6 anos: Brasil Econômico, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, O Estado do Paraná, Jornal da Tarde, O Diário do Povo, Diário do Comércio e O Sul.

É grande a nossa torcida para que as mídias sociais avancem e desenvolvam crescentemente a função verdadeiramente jornalística. Historicamente, o papel da imprensa é decisivo para a democracia. Mas registramos aqui nossa preocupação com os rumos da economia brasileira e, consequentemente, da bragantina. O encerramento da Ford no Brasil evidencia as dificuldades atuais quanto à geração e manutenção de empreendimentos, trabalho e renda. Conforme dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, entre 2015 e 2020 o Brasil perdeu 36,6 mil estabelecimentos industriais. Por dia pelo menos 17 fábricas fecharam as portas nos últimos cinco anos. O mesmo está ocorrendo com empreendimentos comerciais grandes e pequenos.

Noventa e três anos de histórias inesquecíveis

No seu longo período de circulação, o Bragança-Jornal superou várias crises próprias ou do contexto brasileiro ou bragantino. Não é fácil aos atuais diretores, que nasceram e cresceram dentro do Jornal, dar a notícia de que a edição de 30 de janeiro de 2021 interromperá a longa sequência registrada em 14.720 edições: “Há quase um ano, já nos preparávamos para este comunicado. O Bragança-Jornal faz parte de nossas vidas, e nos comprometemos a batalhar pela sua volta, em um ambiente favorável ao jornal impresso”.

Neste momento difícil não poderíamos deixar de agradecer a confiança recebida de anunciantes, assinantes, leitores, autoridades, funcionários e colaboradores. Temos a satisfação de ter sido até aqui testemunha da história de Bragança Paulista.

Temos a alegria de ter impulsionado negócios por meio de anúncios e classificados. Acompanha-nos a satisfação de ter noticiado quase tudo o que aconteceu em nosso município, pautando noticiários de rádios, mídias sociais e outros meios de comunicação. Somos gratos a Deus por ter sido espaço para mensagens de todas as igrejas que nos procuraram em todo esse tempo. Acompanha-nos a alegria de ter compartilhado o que existe de mais sagrado na vida das pessoas: notas de casamentos e de falecimentos, aniversários, anúncios de empregos, inaugurações e muitas outras comemorações.

Não são poucas as pessoas que guardam consigo algum exemplar ou alguma nota publicada a seu respeito no Bragança-Jornal. A recíproca também é verdadeira. Nós, atuais diretores, sucessores de José de Oliveira e Omair Fagundes de Oliveira, guardaremos sempre, na memória e no coração, a atenção, o respeito e o apoio com que fomos tratados por todos ao longo desses 93 anos de histórias inesquecíveis. Trabalhamos muito para evitar esta notícia.

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