Editorial

Editorial: Encontros, desencontros, incompreensão e salvação

publicado em 28 de março de 2018 - Por BJD
Gerson Gomes

Nas paredes laterais das Igrejas Católicas de todo o mundo, encontramos quadros ilustrativos do percurso realizado por Jesus, partindo do Palácio de Pôncio Pilatos, onde foi condenado à morte, até o alto do Calvário, onde foi crucificado. Na catedral de Bragança Paulista, essas pinturas são grandes, muito expressivas. Foram pintadas em 1968 por Sebastião Justino de Faria, artisticamente chamado Mestre Justino da Redenção. Os quadros da Via-sacra demonstram encontros e desencontros, incompreensão e salvação, inerentes ao processo que levou Jesus à morte na Cruz.

As 14 estações não expressam passagens serenas da vida terrena de Jesus. Demonstram acontecimentos dramáticos, desconcertantes, como são hoje um corpo estendido no asfalto depois de um acidente de trânsito, a morte de uma criança inocente em meio a um tiroteio, o sofrimento de uma doença grave, a fome que ainda atinge milhões de pessoas em diferentes quadrantes do mundo, a saída de populações inteiras de sua terra natal em busca de espaço em países estrangeiros, idosos abandonados por filhos que criaram com sacrifício e amor e muitos outros episódios de violência.

A Via-sacra começa com a condenação de um inocente, que passara a vida fazendo o bem e anunciando uma nova forma de viver, fundamentada no amor a Deus e ao próximo. Foi uma condenação espetacular na medida em que foi acompanhada por uma multidão. Esta gritava e insistia: “Crucifica-o”. Cabia ao condenado a esse tipo de morte, humilhantemente, carregar o próprio instrumento do castigo, ou seja, a cruz.

A cruz nossa de cada dia não é leve. A de Jesus ainda mais pesada. Já no início do percurso Ele cai sob a cruz uma primeira vez. Antes de chegar ao alto do morro, lugar da crucificação, cai outras duas vezes. A madeira não era leve. Mais pesado, no entanto, a dor de uma condenação injusta, o apupo zombeteiro da multidão, a ausência de pessoas que se emocionaram com suas pregações e foram beneficiados por seus milagres. Dói muito ser acusado quando a gente é inocente, mais doloroso ainda é a condenação e o cumprimento da pena. A essa dor profunda, somam-se as feridas adquiridas em cada queda. Ainda durante o percurso, sangue já escorre das feridas.

Ao longo da Via-sacra, ocorrem três encontros, todos marcantes, cheio de significados. No primeiro, Jesus encontra sua própria mãe: um filho condenado, abatido, ferido e humilhando diante do terno olhar de sua mãe querida. No segundo, um grupo de mulheres vem ao seu encontro para lhe consolar, sendo elas mesmas consoladas pelo Cristo. Num gesto de grande ternura, Verônica enxuga seu rosto suado e ensanguentado. Como ocorre em acidentes atuais, Simão aproxima-se não como simples curioso. Entra sob a cruz para com sua força física ajudar Jesus em sua missão salvadora.

Hoje estamos acostumados a ver Jesus na Cruz. Parece natural. Em verdade, é uma condenação terrível, inaceitável, extremamente humilhante e dolorosa. Chegando ao Calvário, Jesus é despojado de suas próprias vestes. Em público, fica praticamente nu, totalmente despojado de seus pertences. Ser pregado na cruz é dilacerante, produz aflição profunda, torturante. Pior ainda é ficar no alto da cruz, perdendo todo o seu sangue. As câimbras são agudas. Ao seu redor sua mãe e alguns poucos discípulos. A multidão barulhenta e zombeteira aumentava ainda mais o sofrimento. Teve Jesus a sensação de ter sido abandonado pelo próprio Pai: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Prevaleceu, no entanto, a fé: “Em tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito”.

A Sexta-feira Santa, também conhecida como Sexta-feira da Paixão, tem profunda conexão com o sofrimento humano, seja doença, abandono, perseguição, injustiça ou escárnio. É um dia oportuno para uma observação do como Jesus enfrentou tudo isso.

No limite do sofrimento humano permaneceu na fé diante do Pai. Também de alto significado para uma meditação, as atitudes de Maria, sua mãe, das mulheres de Jerusalém, de Verônica e de Simão. Todo sofrimento é suavizado pela compaixão.