Editorial

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publicado em 15 de abril de 2022 - Por BJD

“Desejei muito comer convosco esta Páscoa”

O coelhinho e os ovos são do nosso modo atual de celebrar a Páscoa, esta, no entanto, vai muito além na sua origem, profundidade e significado. A Páscoa só pode ser compreendida a partir dos relatos bíblicos da libertação do povo hebreu da escravidão do Egito e dos textos evangélicos sobre a vida terrena, morte e ressurreição de Jesus.

Há mais de quatro mil anos, o patriarca Abraão deixou a sua terra natal em busca de Canaã, a terra prometida aos que seguissem o chamado do único e verdadeiro Deus, e lá fundou os primeiros descendentes do povo judaico. No entanto, um período de grande estiagem e falta de alimentos forçou os judeus a se transferirem para o Egito em busca de melhores condições de vida. Após uma chegada relativamente amistosa, os hebreus acabaram sendo transformados em escravos dos egípcios.

Moisés, hebreu criado no palácio do faraó, ao atingir a vida adulta recebeu de Deus a missão de promover a libertação definitiva dos judeus do Egito. Teve então muito trabalho para convencer o faraó e para reunir o seu povo para esse longo deslocamento em direção à Terra Prometida. Na véspera da partida, o povo recebeu orientações quanto a uma ceia que deviam realizar com pães ázimos (sem fermento) e cordeiro. Com o sangue deste, cada família de Hebreus devia marcar a porta de casa, visto que naquela noite a última praga estaria assolando todos os primogênitos egípcios. Era uma ceia rápida, para aqueles que logo mais se colocariam a caminho da Terra Prometida: “Assim pois o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do Senhor” (Êxodo 12:11).

O percurso até Canaã foi longo e difícil. Muitos quiseram desistir, alguns questionaram a Deus e a Moisés, várias foram as intervenções de Deus, tal como o Maná que desceu do céu e a travessia do Mar Vermelho, enquanto o exército do faraó era sufocado. Anos depois, chegando à Terra Prometida, os judeus determinaram que a Páscoa era a festa mais importante do seu calendário religioso.

Treze séculos depois, chegando a Jerusalém, dias antes da sua morte, Jesus ordenou aos discípulos que preparassem a refeição da Páscoa nos moldes da tradição Judaica: E disse-lhes: “Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” ( Lucas 22:15). Enquanto a celebrava, deu a essa mesma festa novo significado ao abaixar-se para lavar os pés dos discípulos, depois, ao partir o pão e distribuir o cálice, seu corpo e sangue doados para uma nova aliança entre os homens e Deus. Pediu em seguida que isso fosse feito em sua memória.

Retirou-se em seguida para orar durante a noite. Foi então traído, preso, condenado, morto no alto da cruz e sepultado no final da tarde de sexta-feira. “E, passado o sábado, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo. E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol. E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro? E, olhando, viram que já a pedra estava revolvida; e era ela muito grande. E, entrando no sepulcro, viram um jovem assentado à direita, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas. Ele, porém, disse-lhes: Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui; eis aqui o lugar onde o puseram. Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele (Jesus ressuscitado) vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis, como ele vos disse” (Marcos 16, 1-7).

A Páscoa, desde então, é a passagem da morte para a vida, imenso mistério da revelação cristã. É dom de Deus, graça disponível para todos aqueles que abrem o coração, creem, observam a Palavra de Deus e a colocam em prática. O almoço de Páscoa em família, tão desejado depois de dois anos de pandemia, deve ser um momento de intenso amor e alegria. A comunhão com Deus e com os irmãos, a partir de então, é dom de Deus e um desafio a ser realizado diariamente por cada um de nós. A Páscoa é contagiante, as mulheres que foram ao sepulcro logo correram para dar a notícia aos discípulos e estes foram ao mundo todo para dar essa Boa Nova que por isso chegou até nós. Podemos e devemos levá-la adiante para muitos outros. Num mundo tão contraditório e tão marcado por divisões, rixas e violências físicas e simbólicos como o nosso, a Boa Nova é cada vez mais necessária. Páscoa, hoje como no tempo de Moisés e de Jesus Nazareno, é a marca inicial de uma longa e dura caminhada na direção da terra prometida e da vida plena e abundante. Que esta Páscoa tão desejada e esperada por nós e por nossos familiares nos conduza a dias mais solidários, promissores e felizes.

 

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