Cotidiano

Sínodo da Amazônia discute possibilidade da região ter padres casados, explica bispo

publicado em 11 de outubro de 2019 - Por BJD
“A Igreja haverá de encontrar caminhos porque vive do anúncio do Evangelho e da Eucaristia”, disse Dom Sérgio

“Ultraconservadores precisam compreender melhor a última hora de Jesus: Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”

A Igreja Católica realiza desde o último domingo, 6, na Cidade do Vaticano, em Roma, na Itália, o Sínodo da Amazônia. O encontro entre os padres sinodais vai até 27 de outubro. Em entrevista ao Bragança-Jornal, na quinta-feira, 10 de outubro, o bispo da Diocese de Bragança Paulista, Dom Sérgio Aparecido Colombo, esclareceu sobre o encontro.

Um dos pontos centrais do Sínodo é a discussão sobre a extensão do sacerdócio aos chamados ‘viri probati’, homens casados que podem ser padres na região Pan-Amazônica, que envolve nove países, incluindo o Brasil.

“O papa Francisco foi quem convocou o Sínodo para a Amazônia. Sínodo é uma expressão grega que significa ‘caminhar juntos’. O papa pretende ver, analisar, contemplar, receber sugestões, abrir caminhos para a evangelização na Amazônia. O Sínodo está preocupado, através dos 258 membros que dele participam, com a evangelização da Amazônia, portanto é um trabalho da Igreja para a Igreja”, afirmou Dom Sérgio.

“Como evangelizar a Amazônia, o povo que vive na mata, os indígenas, os ribeirinhos, os que estão na cidade? A Igreja vai evangelizar, ou seja, ela continuará fazendo aquilo que já faz há séculos. Lá existem muitas outras igrejas, religiões, credos. Costumamos dizer que as seitas, e desculpem usar essa expressão, mas todos me entendem, estão tomando conta e muitos outros interesses, que não são religiosos, estão presentes. O Sínodo da Amazônia é para a Amazônia, portanto, da Igreja para a Igreja. É o olhar da Igreja para o seu agir, para a sua missão naquela realidade desafiadora”, diz o bispo e completa: “A Igreja haverá de encontrar caminhos, porque vive do anúncio do Evangelho e da Eucaristia. Na Amazônia existem muitos missionários, desde os séculos passados. Como a Igreja, que anuncia o Evangelho, vive do Evangelho e da Eucaristia, se a carência dos ministros ordenados é tão grande? O papa tem que pensar. Como será celebrada a Eucaristia lá? Como os pecados do sacramento da confissão serão perdoados se só padre pode fazer isso e lá não tem padre?”

Para o bispo, a Igreja irá discutir a questão, a possibilidade de padres casados para a Amazônia no Sínodo.

“Claro que o Sínodo irá discutir essa questão: como ter Eucaristia nessas comunidades? Pensa-se, vai se trabalhar e debruçar sobre a questão dos chamados ‘viri probati’, homens íntegros, de boa fama lá da Amazônia, lideranças cristãs, que poderiam ser preparadas para serem padres lá, padres casados para aquela determinada região. Isso causou uma confusão muito grande, uma interpretação equivocada dizendo que o papa estaria cometendo heresia, deixando de ser fiel à tradição. O que a Igreja está buscando são novos caminhos para a evangelização sem ferir o depósito da fé, sem ferir a tradição, ancorado no evangelho, na palavra de Deus que deve chegar ao mundo todo. A essência do Sínodo é essa: a evangelização integral”, esclarece o bispo.

Sobre a preocupação do Governo quanto ao Sínodo, o bispo disse que “a Igreja não tem nada a ver com soberania nacional. A CNBB já se pronunciou sobre isso, houve um mal entendido. Essa questão é governamental. O Sínodo vai trabalhar sua ação pastoral e evangelizadora”, disse. “O Sínodo foi sonhado pelo papa em 2017, muito antes da eleição do Bolsonaro, antes dessas queimadas. O Sínodo é da Igreja para a Igreja”, pontuou.

Dom Sérgio explicou que os padres sinodais dão sugestão ao papa. “Se a sugestão do ‘viri probati’ chegar ao papa e ele achar que deve partir para esse caminho, ele partirá e a Amazônia, num breve tempo, terá padres casados. Isso não quer dizer que o papa está ferindo a tradição, pois não está abolindo o celibato. É naquelas circunstâncias que a Igreja diz: precisamos de homens probos, de boa fama, que trabalham na igreja, são cristãos exemplares e conhecidos pela comunidade para fazer o trabalho”, afirma.

O bispo criticou os ultraconservadores católicos: “Se os ultraconservadores estão preocupados com isso, eles precisariam compreender melhor a última hora de Jesus, que disse: ‘Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda a criatura’. Os ultraconservadores estão preocupados, talvez, com alguma atitude da Igreja que irá descaracterizá-la: homens casados é uma exigência nova. Sem eucaristia a Igreja manca”, afirmou.

“A preocupação do papa não é de hoje. O papa Francisco é um homem inserido e conhecedor da realidade de seu tempo, aberto às exigências do nosso tempo, um homem que tem o coração marcado pela misericórdia e pelo acolhimento, como é o coração do próprio Jesus, e isso incomoda muita gente.

Ninguém se preocupe. A igreja é de Deus e o seu Espírito a conduz”, finalizou Dom Sérgio.

Foto: Divulgação