Cotidiano

Setembro Azul: Desafios e perspectivas para a Pessoa Surda

publicado em 25 de setembro de 2020 - Por BJD
Malu Silva é professora bilíngue e tradutora intérprete de Libras/Língua Portuguesa (Arquivo Pessoal)

Dando sequência à série de campanhas mobilizadas neste mês de setembro, o Bragança-Jornal traz na edição de hoje o Setembro Azul, voltado à visibilidade da Comunidade Surda Brasileira.

A reportagem conversou com Malu Silva, professora bilíngue e tradutora intérprete de Libras/Língua Portuguesa, sobre os desafios encarados no mercado de trabalho, na educação e as datas comemorativas deste mês.

Datas importantes

Questionada sobre porque o mês de setembro é importante nessa causa, Malu começa contando sobre um grande marco negativo para a Comunidade Surda, o Congresso de Milão, que ocorreu entre 6 e 11 de setembro de 1880 para discutir os rumos da educação para Surdos. Na ocasião, foi deferido o uso das línguas orais em detrimento da língua de sinais.

Ainda sobre a importância deste mês, a professora reforça que em 23 de setembro é celebrado o Dia Internacional das Línguas de Sinais; 26 de setembro o Dia Nacional do Surdo; e 30 de setembro, Dia do Tradutor Intérprete de Libras.

Malu também explica que a cor azul é um símbolo da resistência e empoderamento Surdo e recorda a seguinte história: “Durante a 2ª Guerra Mundial eram amarradas fitas azuis nos braços das pessoas com deficiência, para identificá-las como pessoas que não pertenciam ao ideal da ‘raça ariana’ e eram exterminadas”, contou.

Educação e Mercado de Trabalho

A professora disse à reportagem do Bragança-Jornal que entregou no final de agosto deste ano uma dissertação de mestrado sobre a história da educação de Surdos em Bragança Paulista e constatou que a falta de formação continuada para as professores e a deficiência na alfabetização são os principais gargalos enfrentados.

Para os surdos, Libras é a primeira língua; e a língua portuguesa escrita a segunda, por isso, defende-se o ensino bilíngue. Porém, como o ensino mútuo de Libras e português escrito é bastante desafiador, os adolescentes se formam sem saber ler e escrever o português, explicou Malu. “Eles não conseguem preencher uma ficha de trabalho ou fazer as operações básicas de matemática, mas sabem Libras”, afirma.

Nesse sentido, há pouca perspectiva de crescimento para o surdo no âmbito do trabalho, geralmente eles atuam em linhas de produção; bem como na educação, pois dificilmente eles têm interesse em prosseguir com os estudos. “Alguns Surdos sinalizaram durante a pesquisa da minha dissertação questões como ‘eu quero terminar a escola para trabalhar; eu não quero estudar mais’; ou ‘eu não sei ler, nem escrever”, comenta.

Malu afirma que o esforço deve ser em tentar alfabetizá-los. “O que temos que priorizar na educação de Surdos é que esses alunos aprendam a língua de sinais e, de alguma forma tentemos alfabetizá-los para que tenham maiores oportunidades no mercado de trabalho e possam chegar a altos níveis de ensino”, afirmou.

Outra questão abordada é que falta nas escolas a presença de um professor Surdo. “Uma criança Surda quando é muito influenciada por um professor ouvinte, ela acaba não adquirindo a cultura e a identidade Surda e, automaticamente, não se aceita enquanto sujeito Surdo”, disse. Para Malu, esse professor Surdo seria o modelo linguístico para o aluno, e a escola como um todo começaria a aprender a língua de sinais e a contribuir para uma verdadeira inclusão.

A Libras nas lives

Com a chegada da pandemia e da necessidade do distanciamento social, muitos artistas passaram a fazer apresentações remotas, por meio das lives, e com um tradutor intérprete de Libras para sinalizar as músicas aos Surdos. Malu explica que a presença de intérpretes nos shows e espetáculos já existe há algum tempo no Brasil, mas com a pandemia ficou mais visível.

“Nas lives começaram a inserir os próprios Surdos sinalizando as músicas. Criou-se uma parceria entre o tradutor intérprete de Libras e o professor Surdo, o que foi um grande avanço”, comentou a professora, que destacou que nesse cenário um tem muito a contribuir com o outro.

Malu destacou que empresas da própria cidade também têm realizado lives com a representação de sinais, não só em shows, como também em ambientes corporativos como na Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (SIPAT).

Inclusão

“Existe uma grande discussão sobre inclusão, pois para o Surdo não é só a questão de colocá-lo na sala de aula. Quando falamos em escola bilíngüe, é a escola que essa criança possa entrar e, ao passar pelo porteiro, ele dê um bom dia em língua de sinais para ela; e quando for para o refeitório, possa conversar com a merendeira. A ideia é que a escola, como um todo, saiba a língua de sinais”, afirma a professora. Malu reforça ainda que são necessárias muitas políticas publicas para que essas crianças Surdas se sintam incluídas.

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