Cotidiano

Natural de Bragança Paulista, escritor e ativista Oswaldo de Camargo terá livros publicados pela Companhia das Letras

publicado em 24 de julho de 2020 - Por BJD
Aos 84 anos, Oswaldo de Camargo terá três de suas obras relançadas por uma das maiores editoras do país (UFMG)

Neste sábado, 25 de julho, é comemorado o Dia do Escritor, e por isso, a reportagem do Bragança-Jornal entrou em contato com o escritor Oswaldo de Camargo, que terá três de seus livros relançados por uma das maiores editoras do país, a Companhia das Letras.

Natural de Bragança Paulista, filho de colhedores de café, Oswaldo de Camargo morou durante a infância no Bairro da Bocaina e foi interno do antigo Preventório Imaculada Conceição.

Também jornalista e ativista do movimento negro, Oswaldo acredita que o reconhecimento de uma grande editora traz grandes perspectivas para outros autores negros, além de agregar muito valor à literatura brasileira.

A Companhia das Letras irá publicar os livros: ’15 Poemas Negros’ (1961), com prefácio do sociólogo Florestan Fernandes; ‘O Carro do Êxito’, contos de 1972, e ‘A Descoberta do Frio’, novela de 1979.

Para Oswaldo, a conquista deste espaço por um escritor negro é bastante representativa e coloca objetivamente o autor em um trajeto de reconhecimento, dele e também da temática negra. “Talvez haja pessoas que estranhem o fato de se bater tanto na designação ‘literatura negra’, achando que o correto seria simplesmente literatura brasileira. Mas penso diferente.

O autor negro está convencido de que precisa conquistar sua fala, secularmente silenciada ou raramente manifestada, como mostro em meu livro ‘O Negro Escrito – Apontamentos’, sobre a presença do negro na literatura brasileira, de 1987″, explica, e relata ainda que em muitos aspectos o negro continua sendo o habitante do país que menos “frequenta as benesses da democracia, e que tem que fazer da paciência a sua maior virtude”, pondera.

A Capela de Santa Cruz dos Enforcados, localizada na Rua da Liberdade e declarada de utilidade pública pela Prefeitura de Bragança Paulista em 2019, é mencionada no poema “Grito de Angústia”, que aparece, inclusive, nos livros que serão reeditados pela Companhia das Letras. Em seus versos traz:

(…) Meu coração pode mover o mundo,
porque é o mesmo coração dos congos,
bantos e outros desgraçados,
é o mesmo.
 É o mesmo coração dos que são cinzas
e dormem debaixo da Capela dos Enforcados…. (…)

Em seu livro “Raiz de um Negro Brasileiro – Esboço autobiográfico”, Oswaldo de Camargo relata memórias de sua vida em Bragança Paulista. O escritor e ativista de importantes movimentos negros no Brasil conta que desde muito antes da publicação do livro ele já estava obcecado por escrever memórias. “Eu me considero um guardador de lembranças. Sendo um dos mais antigos no coletivo de escritores negros, eu achei que poderia dar um ótimo exemplo, animando outros a fazerem o mesmo”, disse à reportagem do Bragança-Jornal.

Lançado em Bragança Paulista, ”Raiz de um Negro Brasileiro – Esboço autobiográfico”, traz as memórias que Oswaldo tem de Bragança (Arquivo Pessoal)

Questionado sobre a importância da cidade de Bragança Paulista em sua história, de pronto responde: “Bragança é minha raiz”. Ele destaca que as paisagens que viu até seus seis anos de idade serviram de base para seu livro “No meu livro Oboé”. Oswaldo conta ainda que terminou há alguns meses uma pequena novela com o nome “Negro Disfarce – O Doutor e o Menino”, que conta a história de uma criança negra muito pobre que aos seis anos passa a morar com um doutor muito rico de Bragança Paulista.

“O menino estuda no Colégio São Luís, tem professor particular de francês e música. A história trata do problema da identidade negra. Deodato, o personagem, não consegue se ver como negro. Há muitos como ele em nosso país”, explica.

Oswaldo conta ainda que foi na cidade de Bragança Paulista, durante sua infância, que ele aprendeu o canto mais triste e marcante em toda a sua trajetória. Trata-se do canto Antoninho e o pavão do mestre, do folclore, que conta a história de um menino que matou o pavão do mestre e acaba morto por ele.

“A história doeu-me demais por dentro, levou-me a pesquisas em fontes folclóricas e descobri que há várias versões dela com variações de letra e melodia. Mas a que fica é a versão que ouvi e aprendi no Preventório Imaculada Conceição, nos meus nove, dez anos”, pondera.

Oswaldo voltou à Bragança para o lançamento do livro “Raiz de um Negro Brasileiro” na USF, em 2016, e conta que foi uma inesquecível emoção, da qual gostaria de partilhar mais uma vez. “Sinceramente, se promover em Bragança o lançamento de ‘Negro Disfarce – O Doutor e o Menino’, cuja história se passa boa parte em Bragança, terei, sem dúvida, um dos momentos mais felizes de minha já longa existência, nesta cidade iniciada”, diz.

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