Cotidiano

Fé muito volúvel

publicado em 13 de abril de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Entramos a partir deste domingo na Semana Santa, hoje mais considerada como um feriado prolongado, mas até o final do século passado era uma semana de recolhimento, oração e memória de acontecimentos centrais da vida de Jesus, consequentemente, uma semana central para a revelação e a fé cristãs.

“Os discípulos foram e fizeram o que Jesus tinha ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou. Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: “Hosana ao Filho de Davi! “ “Bendito é o que vem em nome do Senhor! “ Hosana nas alturas! Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: “Quem é este?” A multidão respondia: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21, 6-11).

Essa entrada triunfal de Jesus em Jerusalém parecia ser o reconhecimento definitivo de Jesus como o Messias enviado por Deus, conforme promessas explícitas do Antigo Testamento. A reação dos discípulos e da multidão que acompanharam o evento parecia ser uma profissão de fé duradoura e consistente. Parecia. Não era.

Tendo entrado em Jerusalém, Jesus intensificou sua pregação, seus sinais e foi muito incisivo quanto à hipocrisia dos fariseus, quanto ao mau uso do Templo e à inconstância dos discípulos no que diz respeito à fé. A pregação da verdade, aquela que liberta, encontrou rejeição, pelo menos inconstância e tibieza.

Depois da ceia que celebrou com os apóstolos, em que lhes lavou os pés, Jesus se retirou em oração no Monte das Oliveiras. Pediu aos discípulos que ficassem vigilantes e orassem, enquanto Ele, um pouco afastado do grupo, dialogava com Deus Pai. Voltando encontrou a todos dormindo. Então Jesus lhes disse: “Ainda esta noite todos vocês me abandonarão”.

Pois está escrito: “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas” (Mt 26,31). Judas, um dos doze, que participou da entrada triunfal em Jerusalém e da última ceia, foi além. Por algum dinheiro, com um beijo traiçoeiro, entregou o Filho de Deus aos algozes. De novo, entra em ação uma multidão, desta feita para gritar: “Crucifica-o. Crucifica-o”. A partir desse momento, seguiram condenação injusta, escárnio público e morte na cruz, tudo acompanhado passivamente por uma multidão ruidosa. Poucos permaneceram na fé, sem abandonar aquele que se oferecia em sacrifício por todos.

Também nossa fé costuma ser muito volúvel. Quem de nós em algum momento de intensa espiritualidade não prometeu fidelidade permanente? Quem de nós em momentos difíceis da vida não dobrou os joelhos para pedir e passado algum tempo, superada a crise, foi deixando Deus de lado, até que Ele passasse a ocupar espaço muito reduzido, secundário a tantas coisas insignificantes que roubam o melhor de nossas energias e atenções?
De fato, a fé sem a graça de Deus não sobrevive.

Entramos numa semana decisiva para a vida cristã. A pregação intensa de Jesus em seus últimos dias na Terra, a última ceia, o seu sacrifício na cruz e a sua ressurreição na madrugada do domingo (de Páscoa) disponibilizam para nós a abundância do amor de Deus. O amor de Deus nos possibilita sempre de novo a oportunidade de tornar inquebrantável a nossa fé, iluminando nossos dias e transformando nossas vidas. Iniciamos agora uma semana propícia para a conversão.