Cotidiano

Educar para a fraternidade

publicado em 25 de fevereiro de 2022 - Por BJD

Irmãos e irmãs!

Iniciamos, com a Quaresma, a caminhada para a Páscoa, acontecimento fundante da vida cristã e ponto alto do ano litúrgico. A constituição Sacrossanctum Concilium – a Sagrada Liturgia, pela qual o Concílio Ecumênico Vaticano II adentrou na Igreja, propõe que na Quaresma os fiéis ouçam de modo novo a Palavra de Deus, se entreguem à penitência, à oração, preparando-se para viver com dignidade tão grande mistério: a morte e a ressurreição de Jesus. Lembra a Constituição que a penitência não é algo meramente pessoal, individual, mas social. As práticas quaresmais, com seus ritos próprios, nos fazem mergulhar na experiência de Jesus, para aprender com ele, como realizar na vida a vontade de Deus.

Com Lucas, o evangelista do ano litúrgico em curso, somos chamados a fazer o caminho com Jesus, caminho aberto para todos. Ele anuncia a chegada do Reino aos que estão na cidade, quase sempre hostil a ele; aos pobres, os preferidos de Deus; às multidões, ávidas de esperança e solidariedade, na insistência da oração como meio para perseverar na adesão ao Reino de Deus; no encontro com os pecadores dispostos a acolher sua mensagem e mudar de vida; como pastor solícito que procura a ovelha perdida até encontrá-la. É com ele que, nesta Quaresma, podemos ser alcançados pela misericórdia de Deus.

No Brasil, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade constituem-se num apelo único à conversão, como possibilidade de viver concretamente a Páscoa de Jesus – o mistério de sua paixão, morte e ressurreição, em nossa vida e na vida do povo. É como um “mergulho” numa determinada realidade que precisa ser confrontada com o Projeto de Deus – o seu Reino, que pede transformação pela força do Evangelho.

Este ano, a Campanha da Fraternidade, com o tema “Fraternidade e Educação” e o lema “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31,26), “contribui para uma mudança de vida profunda que nos leva não somente a pedir perdão a Deus pelos nossos pecados, mas a unir forças na construção de uma sociedade que corresponda a mensagem do Evangelho” (Texto-Base, nº2).

Somos chamados a escutar e aprender, como cristãos, a partir da pedagogia de Jesus, o que Deus, o Pai, tem a nos dizer; a escutar a realidade e a perceber nela os sinais dos tempos, o que significa escutar com mente e coração. Escutar por inteiro, como indica o vocábulo latino educere: escutar e ver em profundidade, fazer sair, vir à luz. Propostas estas já apresentadas na Campanha da Fraternidade de 1982 com o tema “Fraternidade e Educação” e o lema “A Verdade vos Libertará” (Jo 8,32), considerando a educação como parte integrante da missão evangelizadora da Igreja, servindo e promovendo a liberdade para que todos vivam com dignidade a condição de filhos e filhas de Deus, tendo como um dos frutos a Pastoral da Educação. Também a Campanha da Fraternidade de 1998 com o tema “Fraternidade e Educação” e o lema “A Serviço da Vida e da Esperança”, com a questão urgente da solidariedade, da cidadania e do fortalecimento das comunidades eclesiais, como instrumentos eficazes no caminho da paz e do bem-estar social.

É a Igreja que propõe a educação como cuidado dialogal, nas relações interpessoais, e para com o compromisso socioambiental; a educação para a redescoberta das motivações mais profundas ao próprio ato de educar, ou seja, uma educação como indispensável serviço a vida.

Com a experiência da pandemia da covid-19, estamos cultivando a arte do reaprender, amar, perdoar, cuidar, curar, servir a todos. E nesse sentido não podemos deixar de perguntar: A pandemia nos humanizou, nos tornou melhores, ou o “novo normal” é apenas uma edição melhorada do antes da pandemia? Para muitos, Deus parece estar longe, abandonou o seu povo. O que estamos aprendendo com suas demoras?

Qual o caminho a percorrer?

O melhor caminho é Jesus Cristo, mestre e educador, profundamente solidário com as pessoas, preferencialmente os pobres e excluídos. O seu encontro com elas revelava de sua parte um “humanismo solidário”, ao considerá-las por inteiro, na sua integralidade, com corpo humano e alma espiritual.

A conversão quaresmal implica, então, o compromisso com a vida, com o caminhar juntos, num processo contínuo de aprendizado e inclusão, no qual a família tem papel relevante, como lugar privilegiado para crescer em sabedoria, idade e graça. Lembramos ainda as instituições educativas e a relevância do pacto educativo global, tão caro à toda Igreja, “reforçando a urgência de processos educativos que deem respostas significativas aos desafios atuais, tendo sempre presente a centralidade da pessoa” (Papa Francisco).

Enfim, educar conforme o estilo de Jesus, com sabedoria e gestos de amor para o nascimento da cultura do encontro, da ternura e da fraternidade, como resposta a um processo educativo integral, que forma para o serviço ao próximo, para aquilo que ele é, e não para aquilo que ele pode dar ou produzir. Aprender com ele a dar “o melhor de si, a Deus, ao próximo, a Igreja e a sociedade. Educar com sabedoria e amor, é estimular o cuidado pela vida, desde a concepção, passando pelo fim natural, até a eternidade” (TB, nº221).

Com Jesus, Maria e José, a família de Nazaré, percorramos o caminho, deixando-nos educar pelas virtudes humanas e espirituais que dela emanam.

† Sérgio,

Bispo Diocesano

 

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