Comportamento

Expressões

publicado em 11 de Maio de 2018 - Por Paula Pacheco / Folhapress

Palavras e atos que deveriam ser enterrados: Tchau, tchau, ‘gratidão’ – e leve junto essa mania de falar ‘top’, ‘empoderado’ e ‘um beijo no coração’.

Ouvimos especialistas em ambiente corporativo, comportamento, comunicação e mídias sociais para eleger algumas expressões que poderiam ser sepultadas

 

O que houve com o clássico e elegante “obrigado”? Foi atropelado por “gratidão”, palavra usada além da conta para expressar agradecimento, quase sempre seguida do emoji com as duas mãozinhas juntas. Chega de “gratidão” em 2018. Não da atitude, claro, da palavra.

A reportagem ouviu especialistas em ambiente corporativo, comportamento, comunicação e mídias sociais para eleger algumas expressões que poderiam ser sepultadas, e também para apontar hábitos e atitudes capazes de ajudar o profissional a se destacar, em vez de ficar amarrado a um vocabulário limitado e lugar-comum.

Exemplo um. Nas ruas e causas, vá lá. Mas “empoderamento”, usado no trabalho para quando é preciso delegar autoridade ou tomar decisões, é candidato à aposentadoria.

“Coach”, antes empregado só para técnicos esportivos e especialistas em gestão de carreira, virou festa: apropriado ou não, designa várias consultorias, de vida sexual até emagrecimento.

Muitas outras expressões foram vulgarizadas em conversa corporativa e redes sociais e tiveram seus significados desbotados. Esta pode ser a época para a pessoa avaliar seu discurso e identificar o impacto dele nas relações profissionais. Será que, além de estar grato e empoderado, alguém aí abusou de clichês como “propósito”, “proatividade” e “legado”?

Quem sabe se jogou nos estrangeirismos, enfeitando o perfil do LinkedIn com “networking”, em vez dizer que investe em uma boa rede de relacionamentos?

Ou, ainda, vai ver que detonou colegas “novinhos” (millennials, nascidos entre 1980 e 1996), tipo “esse moleque não sabe de nada, passa o dia no Facebook”? Com a palavra, os entrevistados.

Mandar ‘SDV’ para mendigar fama

“Vejo muito as pessoas mandando um ‘SDV’, ou ‘siga de volta’ (usado por usuário de redes sociais que quer trocar seguidores para turbinar a própria popularidade), o que revela a carência enorme das pessoas, refletida nessa mendicância de afetividade. A proposta é a troca de dados para tentar ficar famosinho, em uma espécie de míni-BBB. Mas é apenas uma visibilidade matemática. Esse é um efeito colateral da nossa era. Antes as pessoas tinham 15 minutos de fama, agora têm 10 segundos.”

Excesso de ‘propósito’ indica a sua falta

“Propósito é uma palavra muito importante e que não pode faltar na vida das pessoas, mas passou a ser usada indiscriminadamente e perdeu o sentido. Essas expressões muitas vezes começam nas redes sociais, alguns acham que basta repeti-las para se dar bem e, depois, isso gera uma verdadeira indústria. O que se tentou vender de livro de autoajuda e de palestra sobre propósito nos últimos anos é impressionante. Essa repetição vira uma espécie de copy-paste.”

Deixar para resolver só depois da crise

“A crise gerou estagnação nas empresas. As pessoas dizem que vão esperar o mau momento do país passar para fazer algo, como se fosse um tipo de muleta para fugir do seu processo de tomada de decisão. Mas é justamente em um momento desses que as organizações esperam que seus funcionários parem de esperar e tenham algo mais a oferecer. Esse é um compromisso que podemos assumir com nós mesmos e pela nossa carreira, mais do que com a empresa.”

Falar muito mal da geração Y

“É comum ouvir que a geração Y não sabe se comunicar, que depende demais do digital. Mas será que não está na hora de aprendermos a nos comunicar da maneira como esse grupo se comunica? É uma oportunidade muito boa para aprender com eles e deixá-los também aprender com os mais velhos, de outras gerações.”

Caprichar no jargão do povo ‘antenado’

“Muita gente usa um vocabulário exagerado para se mostrar ‘antenado’ ou causar a impressão que tem mais erudição do que tem de fato. Mas isso é uma bobagem, porque acaba passando a impressão de algo falso, e até pode tirar a atenção do interlocutor do que está sendo falado. É algo que realmente incomoda. Por que dizer ‘network’ se você pode dizer ‘trabalhar em rede’? Seja simples, básico, objetivo. Pense como a mensagem pode ser muito mais legal.”

Pessoa ‘proativa’ já não ‘agrega valor’

“Muitos saem dizendo por aí que são proativos, que querem agregar valor e que têm brilho nos olhos. Mas não fazem a menor ideia do que isso significa e que essas são expressões que não precisam ser ditas, porque simplesmente se tornaram clichês.”

Querer não basta para ‘empoderar’

“Empoderamento se tornou uma das palavras mais usadas do ano de 2017. Sim, é importante, já que precisamos reconhecer a nossa força e o resultado do que podemos construir. Mas isso não se faz custe o que custar. Cada um precisa entender a sua força e o seu poder e, então, fazer a diferença para a humanidade. Não adianta repetir a todo momento ‘empoderado’ e não fazer ideia da razão daquele poder reivindicado.”

Todo mundo quer deixar ‘um legado’

“É incrível que as pessoas pensem em ‘deixar o seu legado’, em como fazer a diferença. Mas não adianta busca isso a qualquer preço sem antes entender quais são as suas forças e os desafios a serem superados.”