Comportamento

“A Ciência da Meditação”

publicado em 8 de maio de 2018 - Por Reinaldo José Lopes / Folhapress

Em livro, psicólogos usam ciência para explicar como meditação funciona

Sim, meditar parece fazer bem, de modo geral, mas está longe de ser um negócio mágico

Daniel Goleman e Richard Davidson, psicólogos e autores do livro “A Ciência da Meditação”, estavam entre os muitos jovens americanos de classe média que, ao longo dos anos 1960 e 1970, deixaram os confortos do Ocidente e se enfurnaram no Himalaia, em busca de um guru que os conduzisse à iluminação.

Ao menos no caso deles, anos de estudo das tradições contemplativas do Oriente conseguem conviver bastante bem com doses salutares de ceticismo.

É o que se depreende da leitura da obra, um guia informativo e moderado dos estudos feitos nas últimas décadas sobre a neurociência da meditação. Embora Goleman e Davidson tenham contato regular com o Dalai Lama e outros mestres budistas e hinduístas, suas conclusões são cautelosas: sim, meditar parece fazer bem, de modo geral, mas está longe de ser um negócio mágico.

Aliás, como os dois fazem questão de frisar, “meditação” é um termo amplo demais. As disciplinas mentais/espirituais oriundas da Ásia que acabaram ficando debaixo desse guarda-chuva conceitual quando foram transplantadas para o Ocidente são quase tão diversificadas quanto as tradições religiosas onde nasceram.

Por isso mesmo, argumentam os autores (ambos com experiência em pesquisa empírica sobre o tema e praticantes da meditação), cada modalidade de meditação provavelmente trará benefícios diferentes, em níveis diferentes, de acordo com a intensidade e a qualidade da prática.

Para demonstrar isso, Goleman e Davidson apresentam o que equivale a um pequeno tratado de metodologia em pesquisa biomédica.

Não basta, por exemplo, colocar meia dúzia de sujeitos numa turma de “mindfulness” (hoje a modalidade mais popular de meditação, cujo objetivo, grosso modo, é focar a atenção no momento presente) e, depois de um mês de treino, entrevistá-los para ver se agora eles se consideram mais focados e calmos.

A análise cuidadosa dos resultados desse tipo de estudo pouco controlado, bem como sua comparação com pesquisas metodologicamente mais exigentes, revela que a mera presença de um grupo de colegas simpáticos e de um instrutor empolgado é capaz de produzir um aumento no bem-estar dos participantes que seria equivalente, no fundo, ao efeito placebo de um medicamento (quando uma substância inócua, oferecida a um paciente que confia em seu médico, parece produzir uma melhora).

ACADEMIA ESPIRITUAL

Outra abordagem metodológica valiosa envolve a comparação do efeito das práticas de meditação com outro tipo de atividade -relaxamento, fisioterapia etc. Em ambos os casos, o resumo da ópera é que a prática casual de qualquer modalidade de meditação, por períodos curtos, dificilmente terá algum efeito positivo duradouro.

Como ocorre quando os músculos são exercitados, a intensa “ginástica” cerebral da meditação também só produz uma mente verdadeiramente possante com o tempo e a prática constante.

Embora os primeiros benefícios de abordagens como a “mindfulness” -melhora na memória de curto prazo, menor ativação em áreas cerebrais ligadas ao estresse e à raiva- apareçam após algumas dezenas de horas de prática, a questão é saber até que ponto é possível produzir “traços alterados”, como dizem os autores do livro -ou seja, verdadeiras transformações da personalidade dos meditadores.

A resposta que eles podem oferecer por enquanto? Sim, os meditadores de “nível olímpico” -grandes mestres e iogues, gente capaz de passar meses ou anos em retiros espirituais- de fato parecem ter certos superpoderes, por falta de um termo melhor.

Análises de ressonância magnética funcional, por exemplo, indicam que esse tipo de indivíduo é capaz de lidar com a dor intensa de maneira muito diferente do comum dos mortais.

Embora eles sintam a intensidade do estímulo doloroso de modo muito semelhante ao de outras pessoas no instante em que ele acontece, é possível testemunhar uma diminuição muito rápida do impacto dessa dor em seus cérebros -como se, de fato, eles conseguissem observar os efeitos da dor de forma distanciada, e não como algo que toma conta da identidade deles.

Da mesma forma, análises preliminares desses grandes iogues sugerem uma capacidade de retardar os efeitos do envelhecimento sobre a anatomia cerebral, às vezes produzindo uma “idade cerebral” algumas décadas mais jovens que a “idade cronológica” do sujeito.

Se não dá para passar onze anos numa caverna do Nepal, o que fazer para tentar conseguir alguns dos tais “traços alterados”? Não tem milagre, dizem os pesquisadores: perseverança, um mestre confiável e trabalho duro são a chave -uma receita de iluminação que não difere muito da que caracteriza a ciência.

 

A Ciência da Meditação
Autores Daniel Goleman e Richard J. Davidson
Editora Objetiva
Quanto R$ 44,90 (296 págs.)