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Vivem sem carro e em apartamento pequeno

publicado em 7 de maio de 2022 - Por Antônio Carlos de Almeida

Falamos constantemente de crise financeira. Ao fazer compras corriqueiras temos a sensação de que a inflação real é maior do que aquela dos índices oficiais amplamente divulgados pela mídia.

Apesar de seguidos aumentos no preço dos combustíveis, os postos de abastecimento têm filas, algumas demoradas, em vários momentos do dia. Isso tem reflexo imediato no trânsito: não são poucas as avenidas, não são poucos os cruzamentos que demandam muito tempo para pequenos percursos. Paradoxalmente, esses fatores não combinam com a sensação de crise. Às vezes me pergunto: o que aconteceria nos supermercados se a situação econômica melhorasse em 30 ou 50%? Pergunto-me também o que seria do nosso trânsito se mais gente tivesse automóvel ou se mais motoristas conseguissem encher o tanque cada vez que parasse num posto. Tenho a impressão de que as filas seriam ainda mais constantes em nosso cotidiano.

Vi recentemente uma reportagem sobre hábitos do casal Fernanda Colombo e Sandro Meira Ricci, ambos árbitros aposentados do futebol brasileiro, atualmente comentaristas de arbitragem na Rede Globo: Há seis anos, quando ainda moravam em Brasília, tomaram uma decisão vista por muitos como radical. Decidiram parar de usar carros e passaram a se deslocar pela cidade apenas andando ou de bicicleta. Mais ainda, optaram por morar num apartamento de apenas 36 metros quadrados.

Fernanda explica um pouco isso, que à primeira vista parece loucura: “Muita gente falava que a gente era maluco porque o carro era mais fácil e confortável, só que a gente gosta muito de praticar exercícios e conseguimos adaptar isso no nosso dia a dia”. Em Brasília, o casal vivia em um apartamento de 36 m². Para eles, ter uma casa menor permitia uma economia importante de tempo com limpeza, por exemplo, mas também menos uso de água e luz. “Não podia nem brigar porque não tinha como cada um ir pra um quarto (risos)”, lembra Fernanda (https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/04/29/ape-de-36m2).

Para Sandro, caminhar ou pedalar enquanto o carro fica de lado é um verdadeiro “ganha-ganha”. Ganha o meio ambiente e ganha sua saúde. Para quem não tem tempo de ir para a academia ou para praticar exercícios em casa, é melhor ainda. Fernanda nunca teve carro. O alto preço do combustível, do próprio automóvel – fora a manutenção – fizeram com que optasse pelo ônibus e pelo trem. Até mesmo quando trabalhava em jogos de futebol como árbitra, ia, no máximo, de carona. Ela conta que já chegou até a ser reconhecida no transporte público por um torcedor e, dele, ouviu o comentário que passa na cabeça de muita gente: “Por que você não anda de carro?”. E acrescenta: “As pessoas ligam o fato de ter um carro a um status social. A pessoa não deveria ficar surpresa por eu estar pegando um transporte público. Em outros lugares, inclusive mais desenvolvidos, é normal as pessoas não terem carro”.

Outro hábito do casal reside na alimentação. Optoupor cozinhar mais em casa para ter um controle maior do desperdício e do que se come. Apesar dos dois estarem satisfeitos com seus hábitos relacionados à saúde, o casal entende que precisa, e deseja, contribuir ainda mais com o meio ambiente. “Ainda podemos mudar alguns hábitos de consumo, valorizar empresas e produtos que respeitem o meio ambiente, na questão dos produtos orgânicos, da coleta seletiva”, explica Sandro Meira Ricci.

Estamos diante de um quadro econômico e social que requer reflexões profundas e ações eficientes para que a convivência seja harmônica e o uso dos recursos naturais disponíveis seja equilibrado. Estamos longe disso. Precisamos atuar em conjunto para que seja possível a sobrevivência de um mundo onde caibamos todos. Fernanda finaliza: “Se mais pessoas tivessem essa escolha, isso contribuiria muito para cuidar do planeta. É um micro que, se todos fizerem, vira um macro”.

 

Antonio Carlos de Almeida

almeida.45@hotmail.com


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