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Verdadeira compreensão da morte e da vida depende de espiritualidade

publicado em 2 de novembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Finados já foi uma data de grande movimentação e comoção. Continua sendo, mas com menor intensidade. Também os velórios mudaram. São cada vez mais breves. Às vezes com horário marcado para o dia seguinte.

Assim como ocorre uma banalização da vida, também os rituais e as cerimônias fúnebres vão se tornando menos impactantes.

A morte é verdadeiramente democrática, não respeita idade, posses e recursos médicos ou hospitalares. Chegada a hora, ela se torna irreversível. A violência e o trânsito contribuem hoje para mortes prematuras, de crianças, jovens e adultos. Estas causam comoções ainda maiores. São inesperadas, absurdas, colhem vidas no frescor de anos iniciais e promissores.

Ao tomar conhecimento de algum passamento, alguns de nós nos esforçamos para conseguir tempo e comparecer ao velório, para um último contato com o amigo ou parente, para um abraço consolador nos parentes do falecido. Passado esse momento, habitualmente de forte emoção, voltamos a nossos afazeres. Estes apenas rotineiros, a maioria sem importância ou urgência.

Enquanto isso, os parentes mais próximos do falecido apenas começam uma etapa, quase sempre longa, de luto. Este é mais intenso na medida em que o parentesco seja mais próximo. É mais intenso na medida em que a morte seja violenta, totalmente inesperada. A morte natural de um idoso, de uma pessoa muito adoentada, é mais facilmente assimilável.

Somos constantemente tentados a viver sem espiritualidade. Achamos que ficamos saciados com nossos passeios, nossas reuniões familiares, nossas festinhas, nossos projetos e nossas realizações. Sintomaticamente, pessoas de todas as idades, no entanto, experimentam profundo vazio existencial. Buscam algum conforto em medicações e terapias. Isso é necessário. Ajuda. Infelizmente, não são poucos aqueles que se afundam no consumo de entorpecentes. Na tensão entre vida e morte, preferem o torpor.

A espiritualidade, por sua vez, independentemente de religião, é uma dimensão profundamente humana. Diferencia a pessoa de todos os demais seres vivos. Não é alienação. É encontro profundo consigo mesmo. É abertura para o verdadeiro sentido da vida. E da morte. É a percepção de que, embora aparências físicas e biológicas não confirmem, há uma continuidade entre a vida enraizada no espaço e no tempo e a vida plena, livre e definitiva.

A fé é um dom de Deus. Possibilita por meio da Palavra Revelada melhor compreensão da vida, também precioso dom de Deus. Aqueles que compreendem isso, mesmo na pobreza ou na doença, levam a vida com serenidade. Dão sinais de que são felizes.

“Eu asseguro a vocês que aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora.

Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem porque conhecem a sua voz …”. Jesus usou essa comparação, mas eles não compreenderam o que lhes estava falando. Então Jesus afirmou de novo – “Digo a verdade: eu sou a porta das ovelhas. Quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem. O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente” (Evangelho de João, 10).

Mais adiante, na segunda carta a Timóteo, o apóstolo Paulo dá uma dica importante em relação à morte e à VIDA: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos que amarem a sua vinda”.
Ir ao cemitério no dia de finados é adequado.

É homenagem aos que partiram. É reviver emoções, carinhos e ensinamentos que fizeram diferença em fases anteriores de nossa vida. Melhor ainda é entrar em contato ou visitar alguém que esteja vivendo uma fase de luto. Bem diz a oração de Francisco de Assis: “Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, pois é dando que se recebe. Fazei que eu procure mais amar que ser amado. É morrendo que se vive para a vida eterna”.