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Verdade apaixonada

publicado em 26 de março de 2021 - Por Pastor Jessé

Quando preso, Cristo foi questionado por Pilatos, governador romano da Judeia: “O que é a verdade?” Porém, assim continua a narrativa: “Ele disse isso e saiu novamente” (João 18:38). Pilatos inquiriu e saiu. Como é o comum, ele também não estava apaixonado pela verdade. A paixão por ambições e prazeres descarta a paixão pela verdade.

Gregório, o Grande, posicionou bem o assunto: “A verdade não será conhecida enquanto não for amada.” O químico-físico e filósofo Michael Polanyi, contemplado com o Prêmio Nobel, discorreu sobre a teoria do conhecer científico em sua obra “Conhecimento Pessoal”. E ele concluiu: “Em cada ato de conhecer entra a contribuição apaixonada do conhecedor…”. O argumento de Polanyi é que, além de saber dados, conhecer a verdade envolve o comprometimento do conhecedor.

Obviamente que, além da paixão, a verdade exige entendimento. Ninguém poderá conhecer e experimentar a verdade se não tiver ciência dos fatos. Mas, a questão não se define no entendimento. É preciso mais. A questão da verdade se define quando envolve uma paixão por ela. Bernardo de Clairvaux equacionou corretamente: “Aquele que entende a verdade sem amá-la, ou a ama sem entendê-la, não possui nem um e nem outro.”

Isso é bem ilustrado com um dos significados de “conhecer” no hebraico bíblico. Além de envolver informações, na cultura hebraica havia o sentido do conhecer que envolvia um relacionar. Por isso, “conhecer” era usado inclusive para descrever o ato sexual. Mas, acima de tudo, era usado para o relacionamento com Deus. Era um conhecer a Deus que ia além de se ter informações.

Não há argumento ou arrazoado intelectual que faça a pessoa aderir à verdade enquanto ela não se apaixonar por ela. Blaise Pascal advertiu: “A verdade está tão obscurecida nestes tempos e a mentira tão assentada, que, a menos que se ame a verdade, já não é possível reconhecê-la.” A luta maior não é sobre demonstrar a verdade e nem é sobre se a verdade existe. A luta maior é sobre o que domina a paixão do ser humano.

Além de se ter dados concretos ou teóricos, verdade é uma experiência mais profunda que envolve todo o ser humano. Por isso ela causa uma revolução espiritual-existencial. A verdade é uma entidade universal e eterna. E sobre a qual o ser humano constroi sua existência, moldando todas as facetas de sua vida.

Pilatos perguntou sobre a verdade e se retirou. Ele esteve frente a frente com a verdade – o Cristo, ou, do Deus Conosco. E mesmo assim Pilatos perdeu a grande oportunidade de conhecer a verdade – Deus. Pilatos parecia ser um buscador da verdade ao indagar: “O que é a verdade?” Porém, como muitos, ele era apenas um especulador ou curioso. Nele não havia o amor pela verdade. Ela amava outras coisas. Por isso ele não esperou a resposta. E não conheceu a verdade.

O amor pela verdade é impedido devido que se ama algo mais acima dela. Seja o que for, é algo humano e fugaz, em oposto ao divino. A maior luta da paixão humana é a quem ele vai se entregar – a verdade revolucionária ou a ilusão conveniente. Cristo apontou que o maior mandamento é: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o coração…” (Mateus 22:37).

Entretanto, o impacto revolucionário desse amor leva o ego a se opor ao conhecimento da verdade. Ele ama demais a si mesmo. Ele precisa ser crucificado com Cristo. É o único caminho para se conhecer a verdade. E iniciar uma vida eterna na verdade do amor de Deus manifesto em Cristo.