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Venezuela

publicado em 6 de março de 2019 - Por Pedro Marcelo Galasso

O tema da Venezuela é mais complexo e vai muito além da discussão sobre quem está certo ou errado, sobre as acusações dos governos petistas terem ou não alimentado a ditadura de Chávez ou de Maduro, sobre a necessidade da intervenção estadunidense na região ou não e, especialmente, sobre a posição do Brasil nesse caso.

Em primeiro lugar, é importante dizer que o caso venezuelano é ímpar no nosso continente, em segundo lugar, a população venezuelana deveria ser foco central de todas as atenções e, por último, é preciso recuperar algumas informações históricas para a compreensão de como a Venezuela chegou a tal situação.

A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta, algo que deve ser considerado ainda mais por sua ligação com a OPEP, o que lhe garante uma posição privilegiada sobre os EUA que teme tal instituição que por duas vezes “quebrou” a economia mundial, especialmente durante a Crise do Petróleo de 1973, responsável por uma crise econômica que se estendeu até a década de 80 do século XX. Além disso, a riqueza do petróleo nem de longe alcançou toda a sociedade venezuelana e, o que deveria ser uma vantagem econômica, fez a economia daquele país ser frágil já que a sua economia se baseia, em quase 80%, na exportação do petróleo.

Tal cenário econômico é mais que propício para o surgimento de lideranças carismáticas e populistas, como Hugo Chávez, que se proclamou líder da Revolução Bolivariana, uma alusão ao líder histórico dos processos de independência da América Espanhola, Símon Bolívar, ou seja, assim como Bolívar libertou os países sul-americanos da sua metrópole espanhola, Chávez iria libertar a América do Sul do domínio econômico dos EUA.

Em 1998, Chávez foi eleito, democraticamente, como presidente da Venezuela, e foi capaz de convocar, via plebiscito, uma Assembleia Nacional Constituinte que mudou o nome oficial do país para República Bolivariana da Venezuela, extinguiu o Senado e aumentou o mandato presidencial para seis anos, com direito à reeleição, ou seja, via plebiscito foi institucionalizada uma ditadura que se dizia popular.

Dentre brigas com a PDVSA, a companhia de petróleo venezuelana, renúncia e retorno ao poder, até a sua morte em 2013, a fragilidade das instituições políticas, a falta de uma democracia participativa de fato e de direito, o desejo das elites de retomar o poder político a qualquer preço e excluindo a imensa maioria da população, permitiu a ascensão de Maduro que se proclamou, de forma populista e ditatorial, herdeiro político de Chávez e continuador da Revolução Bolivariana.

No entanto, Maduro não possui as qualidades políticas de Chávez e ao adotar posturas cada vez mais ditatoriais e ações econômicas ruins viu seu governo afundar a sociedade venezuelana no caos econômico e no esquecimento. Além disso, toda ditadura ao vislumbrar seu fim tem como única e absoluta preocupação a sua manutenção.

O cenário venezuelano é desesperador e o Brasil tem adotado uma postura digna e dentro de suas possibilidades, o que deve ser elogiado e lembrado.

Qual seria o melhor cenário para o futuro venezuelano? Isso é impossível de responder e quaisquer apontamentos são, no mínimo, irresponsáveis.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com