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Unanimidade inteligente

publicado em 16 de fevereiro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Uma frase atribuída a Nelson Rodrigues diz que toda unanimidade é burra. Um acontecimento da última segunda-feira contraria frontalmente tal afirmação. Não obstante seja um acontecimento triste, ouso dizer que foi uma feliz contrariedade. Em acidente aéreo, faleceu o jornalista Ricardo Eugênio Boechat.

Logo colegas atuais e ex-colegas, chefes antigos e atuais, autoridades do executivo, legislativo e judiciário, com frequência alvo de suas agudas críticas jornalísticas, leitores e ouvintes manifestaram comoção e destacaram importantes virtudes do jornalista. O elogio é comum quando a morte surpreende alguém do nosso meio, mas no caso de Boechat parecia bem autêntico.

A notícia do acidente e a sua repercussão ocuparam praticamente todo o Jornal da Band, à noite. Mais surpreendente foi o Jornal Nacional da TV Globo dar-lhe mais de meia hora. Trata-se de um destaque espetacular. Este chegou a utilizar generosamente imagens das concorrentes, durante vários minutos. Isso é quase inédito. Demonstra as excelentes relações de Boechat com os jornais, as TVs e as rádios em que trabalhou anteriormente e trabalhava atualmente.

Os colegas antigos e atuais, assim como os relatos jornalísticos do acidente, foram unânimes em alguns pontos. Todos destacaram a generosidade do jornalista, sempre alegre, brincalhão, camarada, democraticamente, com jovens e idosos, com outros jornalistas e com auxiliares. Veruska, a viúva, declarou: “Ele era o ateu que praticava plenamente com todos o Mandamento do Amor”. Comovente foram os longos aplausos dos colegas ao findar a edição do Jornal da Band da última segunda-feira. A generosidade é cativante, principalmente quando vem de pessoas que ocupam cargos de destaque, num mundo em que a mesquinharia é predominante.

Outro destaque marcante é a identificação de Boechat com o jornalismo, com a busca da notícia. Não foi uma vocação cultivada desde a infância. Começou vendendo livros. Alguns chefes da sua juventude lhe conduziram para a escrita e para o jornalismo. Ele mesmo confessou numa entrevista que entrou de cabeça. Ficava no jornal em que trabalhava até tarde, quando a última página era concluída. Trabalhou em grandes jornais, nas principais TVs e, mais recentemente, nas rádios Band Rio e São Paulo, onde cultivou forte empatia com os ouvintes, abrindo-lhes o acesso aos programas, em que participavam diretamente com perguntas, críticas, notícias, sugestões e brincadeiras. Literalmente, dava vez e voz aos ouvintes.

Suas críticas, quase sempre, eram agudas e ácidas, em todos os campos econômicos, sociais e políticos. Essa dimensão de se posicionar com firmeza diante de contradições e equívocos gerou grande credibilidade para a sua atuação jornalística.

Praticamente, todos que comentaram seu passamento destacaram a importância desse posicionamento, como forma de alimentar a opinião pública e de contribuir para o saneamento de problemas que assolam de diversas maneiras a sociedade brasileira. Combatia o mal, contudo era compreensivo para com aqueles que cometem erros e desvios, ajudando-lhes a buscar o caminho do bem.

Era comum mencionar em seus programas a mãe, a esposa, a quem denominava de minha doce Veruska, e aos seis filhos, com especial destaque para as caçulas, meninas de 10 e 12 de idade. A estes dedicava todo o tempo excedente ao extenuante trabalho jornalístico e às palestras que proferia frequentemente.

Os testemunhos de familiares, colegas, amigos e, inclusive, daqueles que eram criticados por ele indicam que é possível conjugar trabalho intenso com carinhosa convivência familiar, crítica com generosidade, amizade e alegria. Seu legado é amplo e significativo. Muito interessante é fala de sua mãe durante o velório, momento extremamente difícil para corações maternos. Vale a pena conferir: Youtube – “mãe de Boechat concede entrevista emocionante”.