Colunistas

Uma só pessoa, várias facetas

publicado em 5 de maio de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Já havia passado uma semana quando soube do passamento do prof. Jésus Flávio Fanucci Bueno, ocasião em que este jornal trazia convite de missa de sétimo dia, agradecimento aos profissionais da saúde que se dedicaram a ele nos últimos tempos e, de uma forma muito especial, sua coluna “Política em Destaque”, desta feita escrita com amor e carinho por seus filhos e netas.

Fui aluno do prof. Jésus em 1.972, ano em que foi inaugurado o atual prédio da EEMABA. Era um professor competente e exigente. Tanto ele quanto a sua disciplina, Matemática, impunham respeito. Naquele tempo os professores podiam exigir mais do que podem os professores atualmente.

Faz parte daquele seleto grupo de professores que são lembrados ao longo de toda a vida de seus alunos. Além da Matemática, o prof. Jésus não perdia ocasião de apresentar aos estudantes a sua cosmovisão. Na sala de aula era um mestre. Ganhava o respeito, inclusive daqueles que encontravam dificuldades de acompanhar o ritmo forte de suas aulas.

Embora não privasse de sua amizade, de lá para cá, em várias ocasiões, pude observar a maneira afetuosa como tratava os membros da sua família e aos seus amigos. Sempre achei bonito que abrisse espaço para seus descendentes em sua coluna no BJD, onde aparecia em foto, nos últimos anos, ladeado por duas netas. Sempre que nos encontrávamos me cumprimentava com atenção. Confesso que várias vezes fiquei pensando na relação existente entre o professor enérgico e rigoroso e o pai de família dedicado e afetuoso. Duas vertentes de uma mesma pessoa. Riqueza e diversidade de dons.

Também sempre chamou minha atenção o fato de Jésus ser um mineiro da gema. Amava a sua terra e aos seus. Conhecia profundamente a história de Minas Gerais e o jeito de ser dos mineiros. Essa espécie de envolvimento com a própria terra já não é tão comum. Pelo contrário, hoje parece tudo igual, os coloridos específicos vão desaparecendo numa mesma massa informe. Tanto as plantas quanto as pessoas e, principalmente, a coletividade necessitam de raízes profundas, sempre em busca da seiva que nutre e torna a vida esplêndida, colorida em todos os matizes.

Suas colunas, embora adotasse tom coloquial, era profunda, sempre baseada em pesquisas. Assim era com assuntos jurídicos. Citava sempre autores que influenciaram de forma decisiva a doutrina jurídica. Quando o tema era político, ia fundo em busca de fundamentos teóricos e de fatos históricos. Hoje tudo é muito superficial. Tudo precisa ser rápido, o embasamento teórico e o histórico, que sempre demandam tempo em sua pesquisa, ficam sempre para depois. Ou para nunca.

Destaco finalmente uma faceta aparentemente controversa. O prof. Jésus sempre se posicionou politicamente. Atuava no âmbito partidário. Defendia teses e, em Bragança Paulista e em Minas, exerceu funções típicas de agente público. Recorria com frequência ao modo mineiro de fazer política, não se furtando a bons debates e se utilizando destes para descobrir o melhor caminho e desenvolver as melhores ações no âmbito da administração pública.

Era assíduo às sessões da Câmara Municipal. Muitos de nós poderíamos dar melhor contribuição, mas não o fazemos porque preferimos nos concentrar na administração de coisas pessoais ou familiares. O Brasil mais do que nunca está precisando de debates e envolvimentos políticos, em busca de saneamento da administração pública, crescimento econômico e maior bem-estar social.

Franzino de corpo, o prof. Jésus destacou-se entre nós como professor, pai de família, mineiro da gema, pensador jurídico e político, colunista deste Jornal e agente público: uma só pessoa, várias facetas, todas muito significativas e impactantes.