Colunistas

Um novo governo nem tão novo assim

publicado em 10 de janeiro de 2019 - Por Pedro Marcelo Galasso

O início do mandato do presidente eleito faz uma série de propagandas sobre mudanças, mas a única que aparece com mais força é a adoção da proposta econômica liberal.

O seu ministro da fazenda declarou que faz questão da participação mínima do Estado na economia, fala endossada, por exemplo, pelo empresário-governador do Estado de São Paulo que também utilizou o termo Estado mínimo no seu discurso de posse.

Aliás, já parece lícito dizer que o governador de São Paulo, amigo próximo do ministro da Fazenda, busca uma notoriedade cujas pretensões, nunca ocultas ou desmentidas por ele, levam em direção a uma forte campanha presidencial para o próximo e não distante pleito daqui a quatro anos.

No entanto, algumas questões são curiosas.

O presidente eleito declarou que não conhecia pessoalmente, até pouco tempo atrás, o ministro da Fazenda. Como eu não conheço pessoalmente uma pessoa que vou nomear como meu ministro mais importante? A resposta foi – compatibilidade de pensamentos. Uma resposta que nem de longe é plausível ou que sustente tal ideia.

Uma equipe composta com membros do DEM. Estranho para um presidente que se dizia contra a corrupção já que, segundo sites que acompanham ações e parlamentares, um dos partidos políticos mais citados é o DEM que é forte no governo com seu partidário como chefe da Casa Civil.

O desencontro de informações é incomum para um governo que se elegeu sob a ideia de saber o que faz. A questão do IOF, da idade mínima para a Reforma da Previdência, a fala do filho do presidente sobre o nome para a presidência da Câmara de Deputados mostra uma confusão ou uma falta de comunicação que não deveria ocorrer, segundo os dizeres dos próprios componentes do governo.

Além disso, a vitória já prevista de Rodrigo Maia na Câmara de Deputados com a sinalização do apoio do presidente, mesmo com a fala contrária de seu filho deputado, a também prevista vitória de Renan Calheiros no Senado, com o esperado apoio do senador do PSL contra a vontade da senadora mais votada do mesmo partido, expressam que mudança? Em qual direção?

Para a surpresa de todos, segundo indicação e aposta do ministro da Fazenda, um ex-ministro do governo Dilma é escolhido para a presidência do BNDES é alguma brincadeira? Uma aposta em um dos principais alvos da campanha do presidente eleito?

Isso sem considerar as suas falas sobre o “lixo marxista” nas escolas, dando a entender que os professores, notadamente das áreas das humanidades, passam seu tempo cooptando alunos para partidos políticos aumentando o descrédito da escola, dos professores, que passam a ser nocivos à sociedade. Tais falas são perigosas, falsas e só pioram o péssimo cenário educacional do país. Qual a pretensão? Substituir o atual currículo por qual? Quais os parâmetros? Ao que tudo indica se pretende cortar conteúdos e substitui-los por programas com forte viés religioso, especialmente o viés dos grupos religiosos ligados diretamente ao presidente.

E, para encerrar, o que dizer da facilitação da posse das armas de fogo em um país que já é violento no seu cotidiano? No que as armas de fogo, efetivamente, irão melhorar o país? O presidente disse que se estamos em guerra é preciso estar armado e municiado, mas é mais justo dizer que essa guerra se vence com armas diferentes das armas de fogo.

É, parece que a novidade do atual governo é, tão somente, a adoção imediata do chamado Estado mínimo, como se o Estado fosse realmente o problema.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com