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Tragédia Funk

publicado em 7 de dezembro de 2019 - Por Pastor Jessé

Está se ignorando a tragédia maior envolvendo o Baile Funk. Não há como não lamentar a recente morte de nove jovens no tumulto acontecido no Baile Funk em Paraisópolis, São Paulo. Nove vidas ceifadas ainda na juventude, sendo quatro menores de idade. E não há como ansiar por esforços para que isso não ocorra novamente. Mas isso é pouco.

Uma tragédia muito mais ampla e generalizada está ofuscada pelas nove lamentáveis mortes. Funk é sobre decadência e corrupção moral-social. Esses bailes, ou “Pancadões”, são o total desrespeito a tudo que é edificante e cívico. Aliás, vizinhos ordeiros são desconsiderados e pisoteados pela balburdia e som. E, à semelhança do Baile Funk da periferia, existem as alternativas mais burguesas, como as “Raves”, privilegiadas por se darem em lugares mais reservados. O fato é que esses eventos são sinais destes decadentes tempos.

Quem defende esses eventos argumenta que eles são manifestações de liberdade, diversões jovens, expressões artísticas de um dado gênero, ambientes sem preconceitos e encontros de harmonia social. Não há como negar que esses eventos envolvem a energia jovem, a diversão, a arte e a liberdade. Porém, a legitimidade, ou não, dessas facetas atribuídas aos eventos depende de definição mais apurada.

Essa lista de facetas peca por citá-las sem as qualificar. Apenas citá-las é insuficiente. Tais facetas podem ser vividas em modos bem divergentes. O mero listar delas indica uma reflexão rasa. É preciso questioná-las. Então, nesses eventos, como é encaminhada a energia jovem? Que tipo de diversão acontece? Qual é a mensagem que arte utilizada propaga? Qual é a sustentação e duração dessa harmonia social? Qual é o lugar das drogas e a visão de sexo? Qual é o lugar do tráfico nesses eventos? Como a liberdade é desfrutada?

Liberdade pode ser usada tanto para destruição como para construção. E para ser construtiva ela precisa ter forma, ou limites sábios, caso contrário leva ao caos moral e social. E a forma da liberdade tem implicações sobre o modo como se diverte. Diversão não pode sacrificar a dignidade e integridade humana. Quanto à arte, nesses eventos a arte promove uma perspectiva de mundo sem nexo e de descontrole, especialmente nos âmbitos existencial e moral. É um total niilismo destrutivo.

Por isso, a droga está sempre presente, sendo um dos ditos canais para extravasar, ou incrementar, a energia jovem. Há aqueles com uma visão irrealista negando o domínio das drogas nesses ambientes. Esses, com essa visão, já foram inoculados e perderam a condição de discernir a presença do destrutivo. Apenas uma breve conversa com a polícia antidrogas, e com os especialistas nesse campo, essa visão ingênua se torna encardida.

O outro canal de encaminhamento da energia jovem nesses eventos é a excitação sexual libertina. Obviamente, a cultura dominante, incluindo a universitária, crucifica qualquer proposta que afirme que o sexo não pode ser banalizado. É proibido ensinar o disciplinar dos hormônios velozes da juventude visando encaminhá-los para um relacionamento responsável e honrado como o matrimônio. E sexo, longe de ser algo sublime e profundo da constituição humana, é visto como apenas um passatempo e expressão física. Assim, o outro se torna um objeto para o prazer egocêntrico e físico.

O sexo do Funk, Rave e outros eventos, transforma o ser humano em algo tão banal como uma garrafa de refrigerante que gira numa roda jovem, onde depois de cada um tomar um gole, é jogada no lixo. Esse sexo praticado de forma inconsequente não perdoa os desastrosos resultados posteriores no indivíduo e sociedade. E a realidade é que, num mundo libertino, as jovens sempre serão as vítimas mais sofridas. E não há tese de “equidade” do feminismo neomarxista que altere essa realidade. E nem campanhas do tipo “me too” são páreas para esse quadro infernal. Aliás, muitas músicas desses eventos transformam a mulher em dejeto.

A base que poderia segurar essa decadência seria a família tradicional. Mas a morte de quatro menores de idade entre as nove vítimas, sinaliza o grave drama. Aliás, uma das vítimas tinha apenas quatorze anos. O fato é que quase 50% dos mortos eram crianças. Corretamente lamenta-se a calamitosa morte deles, mas equivocadamente não se lamenta o fato de eventos tão decadentes e destrutivos contarem com a presença de tantas crianças. E nem se lamenta que não haja mais pais nas famílias com discernimento e convicção moral, e nem com autoridade, para impedir essa fatídica corrupção das crianças. E pior ainda, talvez tais crianças nem tenham pais responsáveis o suficiente para lhe darem um verdadeiro lar.

O fato é que a grande maioria da população, incluindo as elites intelectuais e artísticas, não lamenta a decadência moral-social promovida de forma tão festiva e aguerrida nos “Pancadões” e semelhantes. Não se lamenta porque tais eventos são sinais de como a mentalidade atual está moldada. Não se lamenta porque se perdeu o discernimento capaz de separar o que edifica do que destroi. E se perdeu a fibra moral para se reagirem favor da edificação. É trágico que não se enxergue a tragédia da decadência em voga.