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Trabalho: da estabilidade à busca de alternativas

publicado em 27 de abril de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Até meados de 1950, o Brasil tinha uma população predominantemente agrícola. A indústria dava os primeiros passos, ninguém imaginava as transformações que viriam meio século depois por meio da informatização da produção, da comunicação e do consumo.

No contexto agrícola de sobrevivência, em que cada família produzia o próprio alimento, com poucas aquisições fora de casa, era conveniente ter muitos filhos em casa. Desde muito cedo, todos de alguma forma contribuíam para que a produção de sítios ou pequenas fazendas fosse suficiente para todos. Apenas um ou dois filhos se desgarravam da família e iam morar fora, normalmente longe de casa, para estudar e fazer alguma coisa diferente na vida.

Com o advento da industrialização, começaram a surgir muitas funções novas em centros urbanos, que a partir de então passaram a ter grande expansão. São Paulo e seu entorno (ABC, Guarulhos, Osasco) são um exemplo claro dessa transformação. Muitos rumaram do interior para esses grandes centros com o objetivo de ocupar um lugar promissor dentre as numerosas ofertas. Enorme contingente veio do nordeste, não poucos fugindo das agruras da seca. De todos os estados,  brasileiros, principalmente jovens, rumaram para esse grande centro produtor, na certeza de que encontrariam emprego num cenário de grande e crescente oferta. Da mesma forma, o comércio, os bancos e os transportes começaram a oferecer variedade de empregos.

Foi uma época de crescimento de oferta e, logo depois, de pleno emprego. Isso possibilitava que uma colocação profissional fosse para sempre. Também possibilitava crescimento na carreira. Havia garantia de estabilidade. Parece que sempre foi assim, não é verdade, foi apenas um período histórico bem curto. Os pioneiros ainda conseguiram colocar seus filhos nessa onda virtuosa. Já a geração seguinte, apesar de ter estudado e de ter feito faculdade, o que não aconteceu com seus pais e avós, começou encontrar dificuldades de boas colocações.

Ainda mais surpreendente e rápido do que o processo de industrialização foi o de informatização. Computadores de todos os portes começaram a acelerar a produção agrícola, industrial e comercial em ritmos tão intensos a ponto de acabarem com dezenas de profissões e milhões de empregos. Surgem então fenômenos bem presentes em cada família e em todos os municípios: desempregados, subempregados, precariedade de trabalho e, tristemente, pessoas que já desanimaram de procurar emprego. Cresceu rapidamente a terceirização, onde a remuneração do trabalho é cada vez menor e todos os riscos, inclusive o de ficar sem trabalho, cai na conta do trabalhador.

De outro lado, os que continuam empregados trabalham cada vez mais, vivem extenuados, estressados e, algum tempo depois, que varia de pessoa para pessoa, irremediavelmente adoentados. Empregos dos sonhos, intimamente ligados à vocação pessoal, inclusive para jovens que fizeram boas faculdades, continuam raridade. Surge então um novo fenômeno, brasileiros de todas as idades, principalmente jovens, saem do país à procura de trabalho e renda nos Estados Unidos, Portugal, Japão, Itália, Austrália e muitos outros países. Dizem que vão à procura do seu sonho, migram apenas à procura de trabalho, escasso aqui e também nesses países. Fazem lá serviços básicos que não fariam aqui.

Em termos de sobrevivência pessoal e familiar, a reforma trabalhista feita por Temer e a reforma da previdência social ora em curso se juntam e jogam contra interesses e necessidades, inclusive básicas, dos trabalhadores. Neste momento, há algo que todo cidadão pode fazer: ficar atento, acompanhar e cobrar seus representantes eleitos para que o mundo do trabalho não se torne ainda mais excludente. Não é uma tarefa simples. O crescimento do desemprego é um fenômeno mundial. Os Estados e os programas de bem estar social foram esvaziados. As empresas capitalistas não têm o menor interesse em aumentar ou até mesmo manter os seus custos. Estamos diante do desafio de retomar o espaço necessário para a continuidade da vida humana sobre o planeta.