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Tolerância intolerante

publicado em 20 de junho de 2020 - Por Pastor Jessé

Uma palavra de ordem na atualidade é “tolerância”. Ela se tornou um termo sutil e perigoso. O uso de “tolerância” como um clichê na rasa navegação midiática e popular, ignora que o termo tem uma conotação bem embasada numa proposta filosófica.

Com o artigo “Tolerância Repressiva”, Herbert Marcuse é um marco na definição esquerdista da tão em voga “tolerância”. Ele foi pensador da Escola de Frankfurt, a principal formuladora do neomarxismo – nova esquerda. Dentro do neomarxismo está o sentido desse uso de “tolerância”. O neomarxismo tem o mesmo alvo do marxismo. Ele quer impor o coletivismo (o indivíduo e família subjugados à comuna). O marxismo clássico defendia a luta entre classes econômicas para atingir esse objetivo. O neomarxismo mantém o objetivo, mas trocou de luta.

O neomarxismo quer chegar ao coletivismo através da luta de classes culturais/sociais. O discurso político passou a ser guiado pelas categorias “oprimido” e “opressor”, mas isso primeiramente quanto a valores e cultura, e num viés de intolerância. Essa visão já encampou a intelectualidade e artistas.

Por exemplo, o neomarxismo é o fundamento que orienta o livro “A Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire, o patrono da educação do Brasil. Os professores são cooptados pelo neomarxismo na formação universitária, e amiúde contaminam a formação das crianças, juntamente com os currículos. O feminismo atual, outro exemplo, dança com essa música, promovendo não a dignidade da mulher, mas fomentando a intolerância para com a masculinidade.

Tolerância vem do latim “tolerare”, significando “suportar” ou “aturar”. É a atitude de condescendência e civilidade para com quem pensa diferente, ainda que não concordando. Porém, Marcuse introduz uma definição e aplicação distinta para “tolerância”. Ele argumenta que as sociedades democráticas (à direita) afirmam a tolerância, mas sutilmente a reprimem. Ainda que as pessoas pensem que as democracias sejam tolerantes, discursa Marcuse, essas sociedades são intolerantes. Ele tem uma visão paternalista sobre o que as pessoas sabem. E ele propõe que se use o revide para subverter essas democracias.

Para isso, Marcuse assim reinterpreta e orienta: “Tolerância, então, seria intolerância contra movimentos da Direita e tolerância para com os da Esquerda. Quanto ao escopo dessa tolerância e intolerância… ele se estenderia para o palco das ações, bem como para as discussões e propaganda…”. Então, o bordão esquerdista da “tolerância”, exigindo e impondo valores à sociedade, nada tem de tolerante. O coletivismo neomarxista, se atingido, seria um sepulcro de pensamento. Aliás, já se tornou deprimente ver no jornalismo uma mesmice de mentalidade. As democracias criticadas por Marcuse, ainda que com imperfeita tolerância, são bem superiores ao neomarxismo.

Ao falar em tolerância, os neomarxistas abraçam a incoerência crassa de falar em tolerância negando o contraditório. Só há tolerância se é possível diferir. A imposição atual sobre todos é a obrigação de serem “politicamente corretos”, ou, concordância exaustiva com a esquerda. É muito maligno. Mas, com essa cilada de usar de forma travestida o termo tolerância, o neomarxismo soa como benevolente, cooptando uma sociedade incauta.

A maior parte das universidades, tomadas pelo neomarxismo, são os ambientes mais intolerantes da atualidade. São doutrinadores, e não educadores. Em nome de inclusão e diversidade, não é o respeito aos homossexuais enquanto pessoas que o LGBT busca, mas a imposição da concordância com a ideia da homossexualidade. As posturas do STF, como o legislar “homofobia”, refletem muito a mentalidade neomarxista, fruto da formação acadêmica dos magistrados. Até o campo do cristianismo já foi dominado em grande parte por essa ideologia. E, quem é fiel à ortodoxia da fé, corre perigo.

No lugar do debate democrático e respeitoso, os neomarxistas usam a tática intolerante de rotular quem discorda deles, como um “cala-boca”. Há uma variedade de rótulos que utilizam: nazista, sexista, machista, conservador, racista, opressor, etc. Para quem discorda da prática homossexual, ainda que respeitando as pessoas, o palavrão é “homofóbico”. A famosa ex-tenista Martina Navratilova, por ter afirmado que é injusto as mulheres competirem com trans-atletas, foi rotulada de transfóbica.

Desde sua incipiência, a humanidade sabe que as ideias não são iguais. Há boas e há ruins. Dr. Peter Kreeft, professor do renomado Boston College, discerniu com lucidez a questão, confrontando a estultícia do politicamente correto: “Seja igualitário quanto às pessoas e elitista quanto às ideias.” Respeitar as pessoas não exige que se omita ou se subjugue ao pensamento delas. É na verdadeira tolerância, com o livre debate civilizado, que se distinguem as boas ideias das más ideias. A alternativa, a da contraditória “tolerância” neomarxista, é o afundar-se na ignorância e trevas.

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