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Todo ano eleitoral…

publicado em 17 de agosto de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

Todo ano eleitoral ouvimos os mesmos discursos que retornam sob formas variadas, mas sempre com a mesma temática, com velhos e novos personagens.

Muito se fala sobre a modernidade das eleições brasileiras, de sua referência para outros países, mas pouco se fala sobre aquele que aperta as teclas da tão moderna e eficiente urna eletrônica. Parafraseando Paulo Freire, não basta votar para mudar o mundo.

Todo o processo que deveria envolver um pleito eleitoral sério e coerente não é visto ou buscado no Brasil. Eleitores alienados do processo político que aparece para aqueles como uma mera, e chata, formalidade porque o ato de votar se resume a um dia. Seria preciso que cada eleitor tivesse a real consciência de todo o processo, incluindo aqui a importância do acompanhamento o longo dos quatro anos de mandato até as próximas eleições, no caso brasileiro de uma forma mais precisa ao longo de cada dois anos, dada a alternância de eleições no país.

Além disso, seria preciso esclarecer que o processo eleitoral não deveria ser visto como um processo de enriquecimento pessoal. Como não vivemos em um mundo perfeito, seria preciso que os mecanismos de controle fossem mais dinâmicos e que não estivessem comprometidos ou que não fossem controlados por aqueles a quem deveriam orientar e punir quando necessário.

É absurdo falar em democracia e consciência política em um país que é incapaz de controlar seus representantes. Também é estranho cobrar participação séria e coerente dos eleitores, ainda mais quando estes se tornaram meros cumpridores de formalidades. O processo político deve ser encarado como uma responsabilidade coletiva e deve conter os mecanismos necessários para que o controle político seja exercido de forma clara, direta e eficiente a cada vez que os políticos eleitos pratiquem condutas que desaprovem a confiança e a legitimidade garantida a eles pelo voto.

A classe política brasileira não está acima dos interesses das pessoas que os elegeram e enquanto esta regra for a diretriz política brasileira pouco alcançaremos no nosso estreito horizonte democrático. Cabem aqui algumas palavras sobre a res pública.

A relação com a “rés pública’ não é uma relação de posse e, portanto, a sua apropriação não deveria obedecer a lógica que rege a esfera de interesses privados. Tal distinção é tida como evidente e natural na medida em que o Estado constrói e gerencia todo o aparato público que ele representa.

No entanto, sabe-se que isto só ocorre formalmente, pois em seu aspecto material e prático a apropriação da “rés pública” obedece a lógica privada de apropriação que obedece a critérios socioeconômicos não podendo atender ao bem comum, descaracterizando-se o seu papel sócio-político.

De que forma podemos montar ou planejar estratégias com um quadro político como este que se apresenta no Brasil?

O sonho estratégico que procuramos é, por vezes, distorcido por lógicas de poder e de interesses que alimentam nossas esperanças, mas que são incapazes de realizar nossos sonhos.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com