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Também não faria por um milhão de dólares

publicado em 10 de novembro de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Recentemente num pronto socorro, um homem de 40 anos cuidava delicadamente de sua velha mãe em observação. Ao seu lado, outro homem, este de 50 anos, também dava todo apoio a uma idosa, sua mãe. Ambos impressionaram-me pela dedicação, gentileza e amor com que cuidavam da própria progenitora. Deram-me a impressão de não saber viver sem a mãe ao seu lado.

Madre Teresa de Calcutá é conhecida em todo o mundo pela dedicação às crianças, adultos e idosos abandonados. Certa vez cuidava gentilmente das feridas de um leproso, sendo observada por um turista americano. Este fez então um comentário: “eu não faria isso ainda que me pagassem um milhão de dólares”. Teresa de Calcutá ouviu esse comentário e respondeu: “O senhor não daria banho num leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho num leproso”.

Esse trabalho silencioso da Madre encontrou repercussão em várias partes do mundo. Esteve nos Estados Unidos para falar para renomados líderes daquele país, esteve nas Nações Unidas, recebeu o prêmio Nobel da Paz de 1979. Mas sentia-se à vontade de verdade cuidando de enfermos. Fez isso em vários países, suscitando grande número de seguidores que hoje constituem a Congregação dos Missionários da Caridade e a das Missionárias da Caridade.

O cuidado de pobres e enfermos desperta muito a atenção de discípulos desde o tempo de Jesus Cristo. Foi assim com Francisco de Assis, que ao dedicar-se ao cuidado de leprosos e famintos logo conseguiu grande número de seguidores. Ao longo da história, outras congregações religiosas que se dedicaram à caridade logo conseguiram formar grandes grupos. Madre Paulina, em Bragança Paulista e outras cidades brasileiras, dedicando-se aos enfermos, logo reuniu expressivo número de seguidoras. Quanto mais radical é a opção do fundador, mais rapidamente crescem as congregações que se dedicam ao cuidado de pobres, idosos, enfermos, leprosos, aidéticos, dependentes químicos, etc.

Parte das pessoas nasce com essa aptidão e com espontaneidade se dedicam ao cuidado de outras pessoas. Outra parte parece não ter essa aptidão. Muitas vezes nem se imaginam na situação de dar o ombro a alguém, de ajudar alguém a levantar-se ou deitar. Menos ainda dar um banho ou fazer um curativo. Para muita gente, visitar parente ou amigo adoentado já é um grande sacrifício, adiado diversas vezes, só fazendo quando já não há mais alternativa.

Os dois homens mencionados e a resposta de Teresa de Calcutá nos demonstram que não é questão de aprendizado, é amor, doação, dedicação. É, portanto, um gesto, uma ação, uma iniciativa. Depende muito daquilo que vai no coração. Não é aconselhável esperar que uma situação familiar requeira essa ação. Podemos desde já e sempre fazer alguma coisa nessa direção.

Um primeiro grande passo é estabelecer com a gente mesmo o compromisso de visitar parente ou amigo acamado. É uma forma de ver a vida a partir de outra posição. Mais uma possibilidade é visitar hospitais ou asilos, contribuir com ações de atendimento a pobres presentes em praticamente todas as igrejas. E, também, fazer algum curso rápido que nos ajude a lidar bem com essas situações. Afinal, nunca sabemos quando alguém de nossa família necessitará de um cuidado mais intenso e, com o passar do tempo, praticamente ninguém está livre disso.