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Sonhar, viver e todo dia agradecer

publicado em 19 de outubro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

A televisão ainda tem alguns programas bem melosos, exageradamente sentimentais. Vi um desses recentemente. Um cantor famoso, conduzido pelo apresentador, voltou à casa onde passou parte da adolescência e da juventude, até ser expulso de casa pelo pai quando o jovem estava abraçando a carreira artística.

O pai queria que ele seguisse carreira militar. A partir dessa expulsão, o jovem procurou uma tia, muito humilde, em bairro bem popular. Foi bem acolhido, passou a morar com ela. Com grande emoção, ainda acompanhado do apresentador, o cantor famoso foi entrando no bairro, depois na humilde casinha.

O portão ainda era o mesmo, havia uma pequena modificação no banheiro, a velha máquina de costura ainda estava lá e, incrível, a caminha em que ele dormia continuava lá. Finalmente, apareceu a velha tia. Foi um reencontro emocionante, principalmente para a tia.

O que mais me chamou a atenção é que há muitos anos o sobrinho famoso e a pobre tia não se encontravam. A justificativa do cantor para o fato de ter deixado a tia para trás é a agenda apertada. Ensaiou uma desculpa ao dizer que dizia para sua mãe que precisava visitar a tia. Embora dissesse que esta era o principal alicerce no início de carreira, admitiu que há muitos anos não a via, não a procurava, deixara para trás.

Infelizmente, isso é muito comum entre nós. Pais, avós, tios, primos, professores e colegas que foram decisivos em alguma fase de nossa vida pregressa ficam esquecidos. Frequentam nossa lembrança, trazem boas recordações, mas não recebem nossa presença, nossa visita, nosso abraço, e muitas vezes, nosso apoio em momentos difíceis de enfermidade, velhice e solidão. Cada um de nós, se parar um pouco e começar a anotar pessoas que nos deram carinho ou apoio em alguma fase de nossa vida, logo chega a uma pequena lista.

Nos dias atuais, é muito comum que pessoas saiam de casa para estudar longe, para trabalhar em outras regiões ou para procurar futuro promissor em outros países. Surgem então dois grupos. Um é formado por aqueles que alcançam sucesso, correm sem parar, vivem com agenda cheia de compromissos, não têm tempo para voltar ao encontro daqueles que deixaram em seu local de origem.

Outro grupo é formado por aqueles que partindo para novos horizontes não encontram o almejado sucesso. Gostariam imensamente de voltar, mas não têm recursos para isso. Ficam apenas nas saudades. Um tanto envergonhados, evitam encontros com aqueles que foram alicerce em algum momento do passado.

A saudade daquele que parte é diferente da saudade daquele que fica. Quem parte descobre novos lugares, faz novas amizades, abraça novos costumes. Pouca coisa lembra o local da sua origem. Quem fica experimenta diariamente o vazio deixado por aquele que foi em frente. A cama vazia, o lugar na mesa, as conversas havidas, tudo continua presente e faz sentir a falta daquele mudou para novos ambientes.

Vale sempre a pena voltar às origens. É uma forma de se encontrar consigo mesmo, de redescobrir que coisas bem pequenas da infância imprimem forte marca no nosso jeito de ser e de viver. Sempre impressiona perceber que pessoas simples, aparentemente sem realizações importantes na vida, vivem intensa harmonia pessoal, familiar e social. É sempre impactante que a presença e a saudade da gente continuam vivas ali.

De outro lado, é grande a alegria daqueles que recebem uma ligação telefônica, um contato via internet e, principalmente, uma visita. A conversa pode até ser repetitiva. As mesmas histórias serão contadas e recontadas em pequeno espaço de tempo. Pessoas idosas e adoentadas sempre recebem novo alento ao receber uma visita dessas. Cada um de nós tem pessoas a serem visitadas, pelo simples fato de terem dado um pouco de si para o nosso crescimento.