Colunistas

Solidão no meio da multidão

publicado em 22 de fevereiro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Levei um susto recentemente. Entrei num longo corredor no momento em que uma pequena multidão de alunos saía da faculdade para a rua. Estava na contramão. Eu entrava, todos saíam. Isso era contornável na medida em que andasse rente a uma das paredes do corredor.

No entanto, mais da metade dos jovens vinha com o celular na mão. Cada um caminhava absorto em seu mundo virtual. Eu não era percebido. Cabia-me nadar contra a correnteza, cuidar daqueles com quem cruzava. Ziguezaguear corredor a dentro, andar como um ébrio.

Mais recentemente, fiz meu percurso habitual das manhãs de domingo. Ocorre que nesse dia ocorreria pré-carnaval na avenida. Observei então vários grupos que se preparavam para o festejo vespertino. Todos estavam munidos de caixas, gelos, caixas e mais caixas de cerveja, um pouco de águas e garrafas de outras bebidas alcoólicas.

No final da tarde, nas ruas que circundavam o ambiente era possível ver lixeiras cheias de latas vazias, pior ainda, latas espalhadas ao longo de calçadas. O evento é feito em nome da alegria, mas parece que esta não é natural, na medida em que depende diretamente do consumo de álcool e de outros estimulantes artificiais.

Vivemos tempos contraditórios, cheios de paradoxos. Busca-se paz na agitação. A alegria já não é uma expansão daquilo que vai no coração. Quem está fisicamente perto não é percebido, enquanto se tem a sensação de que aquele que está distante é íntimo, por meio das mídias sociais. Não faltam festinhas e eventos agitados, no entanto, é crescente a sensação de solidão, de vazio existencial, de dolorosa depressão.

Houve um tempo, não tão distante, em que havia maior interação entre as pessoas. Lembro-me de meu tempo de criança no sítio. No final da tarde, praticamente todos os empregados e meu avô que era o patrão sentavam-se diante de casa, sem pressa, conversavam durante um bom tempo, pelo menos durante uma hora.

Lembro-me que depois do jantar do mesmo dia, meu avô, meu pai e as crianças nos sentávamos na varanda, pelo menos por mais uma hora. Era tempo de conversar, contar histórias e brincar. Nessa época, apesar do trabalho duro na roça, não se ouvia falar de stress, depressão, colesterol e outras moléstias relacionadas ao modo de viver o dia a dia.

A exemplo do que sempre foi possível observar em conventos religiosos Católicos, hoje, religiosos de diferentes orientações cristãs ou não, apresentam um semblante sereno, radiante e contagiante. Não se observa que seja algo forçado. É fácil perceber que brota da paz existente no âmago, no mais profundo de si mesmo. Isso acontece sempre que alguém abraça os rigores, o silêncio, os exercícios espirituais e a vida comunitária típicos de uma vida consagrada a Deus e ao próximo.

Ainda hoje é comum que filhos já adultos passem em casa dos velhos pais ou netos visitem avós para uma conversa tranquila, um café ou qualquer outra refeição. Embora não passe de um evento corriqueiro, tem a força de irradiar uma alegria serena e profunda. Boa para quem recebe a visita, melhor ainda para quem visita. É como se fosse a uma fonte de água pura e refrescante, reparadora de todo cansaço, estimulante para novos passos adiante.

Na volta do carnaval, nos ambientes sociais e de trabalho, existe a obrigatoriedade de cada um dizer para onde viajou e de relatar de quais desfiles ou bailes ruidosos participou, quanto bebeu e qual era a marca da bebida. São exterioridades que logo esvanecem.

Alegria duradora está em nosso íntimo, na convivência verdadeiramente fraterna, na simplicidade do contato com avós, pais, irmãos, tios, primos e outras pessoas que nos querem bem. Mais felizes ainda são aqueles que incluem nessa convivência pessoas idosas e adoentadas. Corpos frágeis costumam revelar a grandeza daquilo que vai no coração e na alma.