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Solidão faz sofrer, adoece e mata

publicado em 23 de junho de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Nos dias atuais, de intensa comunicação, em eventos familiares como churrascos e aniversários, reuniões de amigos, bares, TV, internet, rádio, celular, viagens, parece não haver espaço para a solidão.

Aparentemente, tudo gira ao redor da interação. Na prática, a solidão está bem presente na vida de muita gente. A solidão adoece, faz sofrer e mata. Existem alguns estudos que demonstram que whatssap, facebook, skipe, instagram e outros meios de comunicação atual, ao invés de mitigar a solidão, acentuam.

Existe a solidão deliberada. Algumas pessoas gostam, sentem-se bem e procuram viver de uma forma mais recolhida. Dão a impressão de viver profunda solidão, quando descobriram uma forma de viverem afastados de quase tudo, mas em intensa comunhão consigo mesmo e com Deus.

Não são muitos atualmente, contudo monjas e monges católicos e alguns religiosos orientais vivem isso profundamente. Passam uma imagem de leveza, felicidade e alegria. Demonstram que a ausência de barulho não é solidão. É recolhimento, encontro pleno consigo mesmo. Privilegiam a interioridade diante da exterioridade sonora, mas vazia de sentido e de significado.

A solidão que dói é aquela que se dá na proximidade de outras pessoas, sejam familiares, colegas ou amigos. A causa desse tipo de solidão pode estar na própria pessoa, na medida em que tenha algum tipo de dificuldade no sentido de se aproximar, interagir e conviver. Tudo isso parece ser natural, para muita gente não é. Mesmo com esforço não consegue a interação. Sofre com isso.

Passa a ter ainda mais dificuldade de relacionamento. A solidão avança. Essa solidão que dói pode ocorrer por causa das pessoas que estão ao redor. Muito frequentemente, preocupadas consigo mesmas, com suas histórias, piadas e conversas não percebem a presença daquela que está mais quieta.

Com o passar do tempo, embora as relações de parentesco ou amizade continuem a existir, o solitário não é mais chamado para eventos, festinhas e outros tipos de reunião. A solidão se instala de vez. Todos nós já tivemos amizades muito animadas durante algum tempo, que ficaram pelo meio do caminho. Também já deixamos para trás pessoas com as quais interagimos durante um bom tempo. Alguns destes podem ainda sentir a dor desse abandono.

Há uma solidão que adoece. Tristemente, é muito frequente. Como as relações se dão hoje em ambientes festivos ou de trabalho, quando alguém precisa se recolher por causa de uma doença, quando perde um emprego ou se aposenta, logo é esquecido, deixado de lado ou para trás.

Pais e mães que durante anos tudo fizeram para que filhos fossem a chácaras, praias e outras diversões, de repente, ficam isolados em casa, observando partidas e chegadas de pessoas mais novas, sempre com agendas cheias, sem tempo para um dedinho de prosa. Com o passar do tempo, para o idoso ou adoentado, a solidão se estabelece de vez e esta intensifica o sofrimento daqueles que estão isolados porque esquecidos ou não incluídos em programações das quais poderiam participar.

E existe a solidão que mata. Ou que gera na pessoa um grande desejo de morrer. Em grande parte essa solidão já é em si uma doença. A depressão, por exemplo, se instala hoje em pessoas das mais diversas idades, das mais variadas situações profissionais e em famílias de todos os níveis sociais. O depressivo sofre muito. Aqueles que estão ao redor não percebem tudo isso. Parece-lhes ser uma coisa passageira.

Muitos acham que querendo o depressivo, tudo estaria resolvido. Não é assim. Ocorre uma espécie de amarra interior. Mesmo querendo e tentando, os parentes e amigos conseguem pouca adesão e participação do depressivo. Acabam sendo deixados de lado ou para trás. Alguns sentem-se incomodados, acabam inclusive acusando o depressivo de seu próprio sofrimento. Neste caso, depressão e solidão tornam-se implosivos. O doente vê na morte a saída mais provável.

Ao nosso redor, muitas pessoas estão sofrendo de solidão. Não é fácil, contudo, podemos fazer muito para atenuar esse sofrimento, em especial, daquelas pessoas que já fizeram muito por nós, com destaque para pais, avós, tios, irmãos e amigos.