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Show Business ou Indústria do Entretenimento

publicado em 16 de junho de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Embora ainda não tenha alcançado a agitação costumeira, a copa mundial de futebol está começando nesta semana. Ainda são poucos os enfeites. O entusiasmo é contido. É possível que a partir do jogo do Brasil neste domingo, a Copa do Mundo comece pra valer.

Por enquanto, o que se nota com mais força são as contas daqueles que trabalham com horário fixo. Quais jogos serão realizados em dias úteis? Qual é o horário? Como será a dispensa do trabalho nesses dias? Pouca gente se preocupa quanto à forma de compensação dessas horas dedicadas ao jogo e a possíveis comemorações de bons resultados em campo. Simultaneamente, profissionais autônomos procuram modos de atenuar prejuízos para o rendimento semanal durante esses quase feriados.

Desde 1958, o futebol é uma das glórias brasileiras: campeão, bi, tri, tetra e penta. Nenhum outro país chegou a esse número de conquistas até o presente. O hexacampeonato será uma glória ainda mais inatingível. Também o futebol foi atingido nos últimos anos por alto nível de corrupção.

Nem tudo foi esclarecido até agora, na Fifa ou CBF. Talvez esse seja um dos motivos da frieza atual. Alguns mais críticos temem que uma nova conquista torne os eleitores de outubro ainda menos críticos, como a história registrou em 1970, em que, em plena ditadura militar, a conquista do Tri no México inebriava a muitos, diminuindo o senso crítico, permitindo a continuidade de um regime pernicioso sob vários aspectos.

Outro motivo que pode estar relacionado à baixa vibração em relação à seleção encontra-se no fato de poucas pessoas conseguirem escalar o atual time. A imensa maioria dos selecionados deixaram o país ainda muito jovens para jogar em outros continentes. São jovens brasileiros desconhecidos.

São todos milionários, bem sucedidos. Há poucos anos viviam em bairros populares, a maioria em comunidades carentes. Surpreendeu-me as reportagens individuais do Jornal Nacional. Apresentou bonitas histórias, vários treinadores barrigudos do futebol de várzea foram apresentados como descobridores e desenvolvedores de talentos.

Os sacrifícios de pais, avós e outros parentes foram enaltecidos. Parte deles mantém fortes relações com a comunidade de origem, transformou a vida de familiares ou investe em suas comunidades. Outra parte descolou das origens. Curiosamente, inclusive os negros, estão casados com belas loiras ou morenas claras, raramente negras.

Aqui entra o lado perverso do chamado show business. Esses atletas são apresentados como modelo de sucesso. Como vieram de famílias pobres, subliminarmente passam a mensagem de que é possível a todos chegar lá. Não é verdade. Trata-se de um grupo muito pequeno de pessoas que em pouco tempo chegaram ao topo. Parece democrático. Não é. Enquanto essas 3 dezenas de jogadores chegaram lá, muitos milhares ficaram pelo caminho, alguns até melhores quanto a habilidades com a redonda.

A mídia se utiliza então dessa imagem de vitoriosos como modelo de sucesso. E os transforma em garotos propaganda, reforçando ainda mais o enriquecimento individual de cada um. Cerca de 600 jogadores disputam o Brasileirão. A maioria tem salários relativamente baixos. Outro tanto joga as séries B e C. Muitos milhares estão parados, esperando o próximo torneio regional.

Enquanto isso, crianças, jovens e adultos ostentam em todas as cidades camisas de times famosos, brasileiros e europeus, mais recentemente, inclusive de outros continentes. Também nesse quesito, a imagem dos famosos promove a produção e a circulação de camisas e de outros adereços. Esses produtos, quando originais, custam mais pela imagem do que pela sua utilidade. São utilizadas por aquilo que significam, não pela sua utilidade de vestir, proteger ou agasalhar.

Estamos cada vez mais inseridos num mundo que não nos pertence, pelo qual pagamos muito. Utilizamos símbolos produzidos por interesses alheios e nos sentimos originais e autênticos ao utilizá-los.