Colunistas

Semáforo ou rotatória

publicado em 20 de outubro de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Li há alguns meses um colunista da Folha de São Paulo que comparava vantagens e desvantagens entre semáforos e rotatórias em centros urbanos. Citava o funcionamento do trânsito em cidades de vários países. Infelizmente não me lembro do nome do autor, nem encontrei mais esse artigo. Utilizo aqui essa comparação para analisar tendências bem presentes no processo eleitoral que ainda estamos vivendo.

Dizia o autor que semáforo é um planejamento detalhado e rigoroso, baseado em cálculos, pronto para ser obedecido. Impõe-se sobre todos, a qualquer hora do dia, em momentos de trânsito intenso e, inclusive, em momentos em que não existem veículos na via. Quem de nós já não ficou parado diante de uma luz vermelha durante 60 segundos sem que qualquer outro veículo cruzasse a via? Com o receio de ser penalizado com multa, ficamos parados mesmo em lugares perigosos, corremos riscos apenas para obedecer a uma sinalização de trânsito. Ondas verdes tão prometidas por controladores de trânsito raramente acontecem. Mais frequente é parar e esperar em cada cruzamento.

Dizia o autor, que rotatória é um sistema mais flexível, baseado no bom senso e na colaboração. Mais dinâmico, permite andar quando não é necessário parar para que outros veículos avancem. Embora ofereça alguns momentos de dúvida quando o movimento está mais intenso, depende muito mais dos motoristas. Não faz parar quando se pode andar. Independe de um planejamento externo, rigoroso e frio, a todos atingindo indistintamente. Quando o motorista conclui o trajeto da rotatória, não fica arrependido por ter desobedecido a uma regra, pode prosseguir seu trajeto com leveza. Quando faz uma cortesia para que outro avance, prossegue com a satisfação de quem gera gentileza. Os riscos de assalto são bem menores.

Parece ser que na eleição em curso, a preferência do eleitorado esteja no estabelecimento de semáforos para muitos aspectos da vida em nosso país. Há um aplauso bastante generalizado por medidas rigorosas, por punições mais pesadas, por governos mais autoritários. A democracia, a exemplo das rotatórias, depende mais dos cidadãos. É necessário mais atenção aos semelhantes que estão ao nosso redor. Nem tudo pode ser resolvido sumariamente, menos ainda à bala.

É uma escolha possível dentre as alternativas disponíveis. Historicamente, governos autoritários são substituídos por governos mais democráticos. E governos democráticos tendem a ser substituídos por governos mais autoritários. O mesmo ocorre com direita e esquerda. E, ainda, também ocorre entre economicamente liberais que desejam estado com menos força e aqueles que visam um estado socialmente centrado na melhoria das condições de vida das camadas mais sofridas da população.

Na condução de um país ou de um estado, não é simples um planejamento rigoroso, estático e, praticamente, imutável como ocorre no caso de trânsito regulado por semáforos. Em regimes democráticos, a opinião pública, a imprensa, os parlamentares, aqueles que atuam no poder judiciário e o executivo, interagem, pressionam e cedem, movimentam-se como ocorre nas boas rotatórias, amplas, com espaço para todos.

Raramente queremos uma autoridade mais forte que também aja sobre cada um de nós, nossos filhos, parentes e amigos. É mais frequente querermos mais rigor apenas para outros, em geral para pessoas já marginalizadas pelo nosso sistema econômico, social, educacional e político. A ampliação do autoritarismo pode também transbordar em consequências para cada um de nós e para aqueles que nos são próximos. Diz o ditado popular: “O pau que dá em Chico dá em Francisco”.

Estamos todos diante de uma escolha difícil para os próximos anos do nosso país: semáforo ou rotatória, democracia participativa ou autoritarismo? Depende muito daqueles que já foram escolhidos para o Congresso e da escolha deste segundo turno. Avanços sincronizados dependerão também do acompanhamento dos eleitores ao longo dos mandatos.