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Refazer é mais fácil do que fazer?

publicado em 23 de janeiro de 2021 - Por Antônio Carlos de Almeida

Consequências funestas da já longa e ainda indefinida pandemia estão fazendo com que muita gente esteja em processo de adaptação ao home office, esteja reunindo forças para retomar suas atividades, esteja buscando alternativas de trabalho ou de estudo, ou esteja pensando seriamente em parar.

Mas aí brotam perguntas: que farei para me manter ativo, para continuar participando da vida social e, quase sempre, como manter a sobrevivência digna com diminuição dos rendimentos? Aquele que retoma atividades ou refaz projetos, tem a dificuldade de reunir forças para repetir o que já fez em etapas anteriores da vida. Tem, no entanto, alguma facilidade na medida em que já escalou dificuldades, saboreou conquistas e se manteve em bons patamares.

A maior parte dos estudantes, numerosos recém-formados, milhões de jovens que procuram o primeiro emprego e mantenedores de negócios recentes, podem estar encontrando grandes dificuldades neste momento. Sem ter chegado a lugar algum anteriormente, agora precisam tomar decisão, estabelecer algum projeto, visualizar metas e iniciar a caminhada. Podem experimentar insegurança mais aguda, as incertezas pesam. Amigos e parentes, talvez, aconselhem: não é hora de começar.

Tanto para quem já esteve lá quanto para quem está a caminho pela primeira vez, e para todos que têm sonhos e planos, a história de Antônia Maria Faleiros, a empregada doméstica brasileira que usou livros achados no lixo para se tornar juíza, é bem edificante. Nasceu na pequena Serra Azul, município a mais de 500 km de Belo Horizonte, com população inferior a 5 mil habitantes. Filha mais velha e com 5 irmãos, Antônia trabalhou aos 12 anos em um canavial. Menina esforçada, sempre fazia questão de ler o que via pela frente. Segundo ela, no “acampamento” do canavial, acendia uma lamparina em uma cabana para ficar lendo até tarde da noite.

Sozinha, aos 17 anos mudou-se para a capital mineira. Acreditava que conseguiria abrigo. “As pessoas lá na minha cidade diziam ‘vai que vou te dar uma força’, mas aí, quando você chega na porta da casa delas ouve que elas não podem te receber porque a casa é pequena”. Arrumou trabalho como empregada doméstica, mas com salário impossível de bancar aluguel. “Num determinado dia, ao terminar meu serviço de faxina, fui convidada a me retirar da casa onde estava. Fiquei sem ter onde dormir e fui para um ponto de ônibus aguardar o horário de voltar para o trabalho e assim fui ficando”. Foram cerca de seis ou sete meses na rua até que uma desconhecida a recebeu em sua casa.

Apesar dessa precariedade, ela se inscreveu para um concurso de oficial de justiça no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Como não tinha dinheiro para comprar o material de estudos, Antônia pegava do lixo folhas borradas de um mimeógrafo que fazia apostilas de um cursinho preparatório. Conseguiu aprovação. Como oficial de justiça foi estudar Direito na Universidade e se tornou juíza: “Eu rompi uma barreira”, diz Antônia. “Gosto de contar essa história para reafirmar: a filha de uma dona de casa simples e de um trabalhador rural pode sim alcançar o que quer. Todos nós podemos”, completa.

A história da juíza Antônia é uma corrida solo por sobre obstáculos. No momento difícil que atravessamos nos ensina duas coisas: é sempre possível alcançar o que almejamos na medida em que saibamos aquilo que queremos, e sejamos persistentes. A outra lição reside no fato de podermos ajudar aquele que se coloca a caminho de conquistas, mesmo quando essas nos pareçam inalcançáveis. Longe de nós desencorajar ou jogar contra. Todas as crises geram pessoas de fibra, altamente empreendedoras, vencedoras.