Colunistas

Quinze vagas para dois mil candidatos

publicado em 26 de outubro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

A vida atual é muito seletiva inclusive para aqueles que desde muito cedo estudaram em boas escolas. Recente edição da Revista Exame trouxe uma reportagem sobre um processo de seleção para jovens “trainees” realizado pela Votorantim Cimentos. Os números desse processo e sua metodologia apresentam dados para uma reflexão sobre a complexidade do acesso ao emprego.

Na penúltima etapa do processo seletivo, o departamento de recursos humanos da empresa, com a participação direta de executivos de outras áreas, realizou uma dinâmica grupal diferente. Ao invés de permanecerem em dependências da empresa ou passarem o dia em algum hotel, foram para as ruas. Conviveram e trabalharam durante todo o dia com catadores de papel e suas carroças ou carrinhos.

Não foram para as ruas com a finalidade de ensinar catadores de material reciclável. Foram para conversar com eles, entender o seu dia a dia, compreender suas noções de empreendedorismo, observar quantidade e variedade de lixo nas ruas, avenidas e praças, identificar que tipo de empreendimento produz mais lixo e, ainda, verificar que a coleta seletiva pode ser ampliada em residências, estabelecimentos comerciais e industriais.

Conforme explicações da coordenadora dessa etapa de seleção, há muita experiência e, inclusive, conhecimento, que pode ser levado dessa importante atividade para as empresas. Por sinal, a Votorantim está fazendo investimentos numa usina de reciclagem para aproveitamento dessa matéria-prima amplamente disponível. Trata-se de uma atividade rentável para indivíduos, para pequenas e grandes empresas. Sem falar no alcance ambiental e social dessa atividade.

Outro aspecto interessante dessa iniciativa reside no fato da mesma ter sido realizada em parceria com “Pimp My Carroça”. Trata-se de um movimento que reúne em São Paulo mais de mil catadores de lixo, realçando por meio de arte seu papel econômico e social. Utilizam carroças bem coloridas para motivar os trabalhadores e tornar visível a importância do seu trabalho.  Também desenvolve dinâmicas para elevar a autoestima das pessoas que conseguem sua subsistência por meio dessa atividade.

É interessante esse olhar da mencionada empresa e da ONG sobre o nosso atual sistema de produção e de consumo, assim como sobre a importância do trabalho realizado por milhares de catadores. Estamos todos num mesmo barco, dependendo de equilíbrio constante, de responsabilidade econômica, social e ambiental. Precisamos desenvolver uma cultura que preserve tanto a natureza quanto o ser humano.

Triste de verdade é observar que também muitas são as pessoas descartáveis. Mais de 2 mil jovens das melhores faculdades brasileiras se inscreveram nesse processo seletivo. No final, apenas 15 “trainees” serão contratados. Todos os demais ficarão esperando a abertura de novos processos seletivos, encontrarão dificuldade de um emprego depois de pesados investimentos pessoais e familiares.

Às vezes não percebemos, mas a nossa sociedade continua muito seletiva. Jovens e adultos graduados e pós-graduados, inclusive em boas universidades, não conseguem empregos compatíveis com a sua formação. Paradoxalmente, boa formação sem registro de experiência profissional não vale muito. Estudantes e familiares defrontam-se então com desafios semelhantes ao de um vestibular muito concorrido. Isso não significa que estudo deixou de ser importante. Continua decisivo, mas requer competência, habilidades e empreendedorismo para conseguir e manter um lugar no concorrido mercado de trabalho.