Colunistas

Quanto tempo o seu tempo tem?

publicado em 24 de novembro de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Qual é o tempo que vivemos hoje? Quando digo essa palavra, tempo, o que vem na sua cabeça? Que não tem sido suficiente 24 horas para o seu dia? Ou é muito tempo, que não passa logo para chegar aquela data importante, tão esperada… “há tanto tempo”? É bem redundante, mas necessário para nos fazer olhar para esse assunto que vivemos, a todo tempo.

Precisamos de mais tempo para conquistar aquele sonho antigo, mas precisamos de mais tempo trabalhando para ganhar mais, para que além de sobreviver possamos viver com esse dinheiro. Ou então falta tempo para podermos descansar, aproveitar aqueles com quem dividimos a vida, a família, companheiros (as), filhos, amigos. Poder fazer aquela viagem esperada… tanta coisa que ficamos esperando para ter tempo. Ou perdemos tempo com aquilo que não queremos, para ganhar algum tempo ali na frente.

O tempo é assim. Cheio de trocadilhos, minúcias e nuances. Mauro Grün (1996, p. 25) me fez começar a refletir sobre esse termo onde ele analisa em sua obra dizendo que “no decorrer de toda a Idade Média, o tempo sempre fora considerado como algo que pertencia a Deus. Com o surgimento das relações de mercado […] fazem com que os comerciantes comecem a vender a prazo cobrando juros. Ao venderam a prazo eles estavam ‘vendendo o tempo’.” Logo tira o valor do tempo orgânico, natural que há no ser humano, na natureza, afinal, como ainda Grün diz “a natureza não tem mais um tempo que lhe seja próprio, com seus ciclos e suas relações de eco-dependência de cadeias tróficas. […] A natureza é mercantilizada.”

A partir dessa análise é possível materializar uma ideia de algo que muitas vezes nos vemos presos. Como estar em uma relação não saudável porque “já faz tanto tempo mesmo”. Ou continuar cultuando hábitos culturais porque nós fomos ensinadas assim, e há tempos é feito dessa forma, e logo ouvimos… “Porque mudar? Porque questionar o que já está imposto?”. Aí é que está a brecha para ressignificar o tempo que nós fomos ensinadas, afinal nem tudo que nos ensinaram está acontecendo com sucesso, não é mesmo?

Nesse caminho podemos observar dentro do nosso cotidiano o quanto o tempo está em tudo e como o caracterizamos, como colocamos em caixas de “isso está indo rápido demais”, “isto está demorando muito”. Mas quando de fato o tempo não é indicador de qualidade, porque nem tudo que é feito rapidamente é necessariamente bom, e nem tudo que demora significa algo ruim.

Com isso, podemos refletir, como estamos investindo o nosso tempo? Não digo isso no teor de que “estamos perdendo tempo, precisamos correr e fazer tudo que há, largar os empregos mais ou menos, gastar tudo em que dizem que é bom”, longe disso. Precisamos reavaliar essa ideia que venderam para nós e silenciosamente compramos de que “tempo é dinheiro”.

Busco então, dialogar com a nossa consciência, com o nosso sentimento sobre aquilo que de fato estamos vivendo. Como estamos vivendo… conectados com nossos valores? Respeitando o tempo natural da vida? Como por exemplo, dos alimentos, o tempo de semear, do crescimento, da colheita, e de todos os processos que precisam ser realizados para que chegue um alimento de qualidade em nosso prato. Ou estamos tão ansiosos buscando potencializar até o tempo daquilo que é natural, colocando incontáveis químicos, fazendo nascer o alimento em um tempo, numa estação, em um local que não lhe é próprio e muito menos natural.

Será que estamos conseguindo respeitar o tempo do próximo? De aprendizado, de entender aquilo que também não sabíamos? Assim como as crianças, e a criança que nós fomos, precisamos de tempo para entender, para aprender, para cair e levantar, e isso é diferente para cada um.

Portanto, precisamos praticar a empatia com o outro, respeitar o tempo da natureza, ressignificar o nosso tempo, para que haja tempo, e seja leve, feliz.

Deixar viver o que há para viver, mesmo que “errado”, mas porque mesmo no erro – ressalva aqui para outro termo que possui diferentes significados, pois a verdade de cada um é única – podemos aprender muitas coisas, e é essencial compreender que cada um tem um tempo, de aprender, de errar, de acertar, de escrever sua própria história. Assim como nós também o temos, a caneta para escrever nossa história, a coragem para agir na nossa vida, o chão para cair e os sonhos para alcançar. Que tenhamos sabedoria para viver, força para vencer os desafios e tempo, de ser humano.

Referência: GRÜN, Mauro. Ética e Educação Ambiental: A conexão necessária. Campinas, SP. Papirus, p.1-120, 1996.

Laíza Teixeira Pedroso, Tecnóloga e Educadora Ambiental, colaboradora do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais. E-mail para sugestão e diálogos: laizateixeira pedroso@gmail.com.