Colunistas

Promessas e eleições

publicado em 3 de agosto de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

Muitos eleitores fazem suas escolhas eleitorais baseados nas propagandas e nas famosas promessas dos candidatos, mas ignoram o fato de que nada do que é propagandeado tem a obrigação de se tornar um fato real, ou seja, as promessas são vazias, as propagandas exageradas e, por vezes, nada inocentes.

Fato concreto é que os eleitores desconhecem as nuances do processo eleitoral e ignoram as influências que os grupos e a mídia eleitoral têm em suas escolhas.

Podemos afirmar que nenhum candidato tem a menor obrigação de cumprir o que foi propagandeado ou prometido já que o mandato eleitoral brasileiro não é imperativo e, por isso, tudo o que foi dito ao longo de toda a campanha nada mais é que um conjunto de possibilidades, de suposições e só isso. Portanto, as escolhas segundo o que é dito não servem como referência real, além de não existir nenhum mecanismo legal ou político para que sejam cumpridas as promessas, exceto, talvez, as próximas eleições. Algo improvável diante da falta de memória ou de interesse dos eleitores brasileiros.

A melhor maneira de escolher um candidato é pesquisar seu partido político, buscar um alinhamento entre os desejos individuais e as propostas eleitorais, bem como observar atentamente o passado político dos candidatos. Ainda que não haja garantia do cumprimento das ações, como observado acima, é possível que uma certa coerência seja encontrada.

Ano após ano, eleição após eleição permanecemos sem nenhum controle ou sem nenhuma segurança sobre os mandos e os desmandos dos políticos que são eleitos ou indicados para seus cargos e nem sabemos como eles cumprem seus deveres e suas obrigações. A falta do mandato imperativo, as confusões nas propagandas eleitorais, com seus efeitos e frases de efeito, seus jingles e músicas, as promessas descabidas e que, muitas vezes, nem azem parte de suas atribuições nos deixam indefesos e reféns de vontades individuais e partidárias que levam os eleitores à descrença e ao desinteresse, tudo em um processo muito bem pensado e elaborado para que este fim seja alcançado.

Nesse ponto, a pergunta que surge é – então, por que votamos, por que as eleições ocorrem?

E a resposta é simples – para que exista um ar de democracia, de escolhas livres e de construção direta de uma estrutura política escolhida pelo povo.

Entretanto, o formato das eleições, a carência de mecanismo de defesa dos interesses dos eleitores, a falta de comprometimento dos políticos eleitos com seu eleitorado cria um ambiente de insegurança e de tanto faz, marca maior do desinteresse e da desilusão do eleitor frente a todo o processo decisório brasileiro.

O afastamento dos eleitores é nocivo ao processo de construção de uma sociedade democrática que precisa, desesperadamente, de uma classe política justa e honesta que cumpra suas atribuições legais e pretenda criar um ambiente social e econômico mais inclusivo e amplo, sem deixar que milhões vivam ou sejam largados a própria sorte.

Um processo eleitoral que não seja capaz de oferecer um mínimo de segurança e de credibilidade aos seus cidadãos não pode e não deve ser considerado democrático.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com