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Produção Orgânica em larga escala e SAFs: potencialidades e desafios

publicado em 11 de fevereiro de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Integrantes do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais organizaram no mês de janeiro/2020 uma visita à Fazenda da Toca, para ampliar o olhar sobre experiências em pesquisa e desenvolvimento de produção de alimentos orgânicos em larga escala.

A produção orgânica a preços acessíveis ainda é um desafio e tende a ser vista como uma preocupação elitista. Contudo, uma alimentação de qualidade, livre de produtos químicos nocivos à saúde é uma preocupação que deveria estar no centro das pautas de saúde pública, pois há cada vez mais estudos que demonstram o grau potencial de impacto de alimentos contaminados sobre a saúde coletiva, o que onera desnecessariamente estruturas institucionais e sociais.

As práticas alternativas, como a produção em escalas menores de produtos agroecológicos, têm demonstrado grande potencial e ótimas respostas de produtividade. Experiências de hortas urbanas em diversos países têm buscado aproveitar espaços dentro da malha urbana subutilizados para produção de alimentos.

Esse esforço não é em vão. A preocupação, garantir maior autonomia das áreas urbanas e alimentos saudáveis, é uma prática que vem sendo apontada como uma alternativa viável para um futuro não distante. Ainda assim, o alto grau de urbanização exige alternativas de produção em escalas desafiadoras.

A visita à Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, foi uma busca por compreender a trajetória de uma unidade que busca pesquisar, experimentar novas práticas em larga escala.

Durante a visita fomos convidados a compartilhar a história da área, os desafios de alterar uma área que tinha uma produção tradicional de cítricos e que foi se adaptando à produção agroflorestal e produtos orgânicos. Entre as atividades atuais estão a produção de ovos orgânicos e leite orgânico.

A concepção base é o bem estar animal, remoção de uso de diversos tipos de controles químicos para garantia de desenvolvimento animal com base num manejo muito diferenciado. Neste contexto, questões aparentemente simples como controle de carrapatos das matrizes leiteiras e doenças entre as aves com uso de químicos, geram para a equipe uma saudável provocação, a proposição de alternativas de controle ambiental e sanitário.

O grupo ainda pode conhecer a experiência de produção agroflorestal. A definição sobre produção agroflorestal pode ser relativamente diversa, pois trata-se na realidade de uma técnica agrícola ancestral: em geral busca ajustar a produção alimentar com a inteligência ecológica natural dos ambientes florestais, obtendo graus elevados de eficiência ecológica. Os SAFs (Sistemas Agroflorestais) produzem alimentos fortalecendo os ecossistemas.

A partir da visita, o grupo foi apresentado a diferentes áreas, onde puderam compreender as estratégias adotadas, os resultados obtidos e os atuais desafios de produção. Também percebeu o empenho dos envolvidos na produção, ao buscar parcerias com grandes empresas produtoras de maquinários agrícolas, para desenvolver equipamentos adequados ao manejo de agroflorestas de larga escala, uma vez que compactação do solo causada por equipamentos tradicionais, a diversidade de paisagem por maior aproveitamento de corredores entre espécies, entre outros requisitos de um manejo diferenciado estão ainda por serem resolvidos do ponto de vista tecnológico.

É importante ressaltar que produção de alimentos com uma perspectiva agroecológica, com redução de agroquímicos, não é sinônimo de aceitar baixa tecnologia e produtividade, pelo contrário, é sinônimo de busca por alta tecnologia, inclusive tecnologias sociais e mais eficiência na relação de custo investido/retorno.

Um dado interessante que costumamos ignorar é que temos uma imensa perda de solos (física, como erosão, ou química e biológica, como degradação), que tem avançado muito silenciosamente no mundo. Deste modo, manter a terra fértil, com produção de água e alta produtividade são o ponto forte dos SAFs.

A lição que fica é que produzir alimento de qualidade é desafiador e deve nos preocupar. Então fortaleçamos os produtores da nossa cidade e região!

Patrícia Martinelli, colaboradora do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais